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Câncer infantil: por que os sintomas se confundem com outras doenças e atrasam o diagnóstico

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Febre, cansaço, dor nas pernas e dor de cabeça fazem parte da rotina de qualquer criança. O que diferencia um quadro comum de um sinal de câncer infantil é a persistência, a combinação de sintomas e a falta de uma explicação clara.

O câncer em crianças e adolescentes é raro, mas não é desprezível. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 7.560 casos novos por ano no Brasil entre 2026 e 2028, na faixa de 0 a 19 anos, sendo cerca de 3.960 em meninos e 3.600 em meninas. Segundo o INCA, o câncer já é a primeira causa de morte por doença nessa faixa etária, respondendo por 8% dos óbitos entre 1 e 19 anos.

Ao mesmo tempo, o câncer infantil está entre os tumores com as maiores chances de cura da oncologia. Quando o diagnóstico é feito cedo e o tratamento acontece em centro especializado, cerca de 80% das crianças e adolescentes podem ser curados. É justamente por isso que o atraso no diagnóstico pesa tanto: tempo perdido, nesse caso, significa doença mais avançada e tratamento mais intenso.

Este conteúdo reúne as confusões mais frequentes entre os sinais de câncer na infância e as doenças comuns dessa fase da vida, e explica quando vale a pena pedir uma investigação mais aprofundada.

Por que o câncer infantil demora a ser diagnosticado

O atraso no diagnóstico raramente tem um culpado único. Ele costuma ser a soma de três fatores que se reforçam.

O primeiro é a natureza dos sintomas. O câncer infantojuvenil não costuma se manifestar com um sinal exclusivo. Na maior parte das vezes, ele aparece com queixas inespecíficas, as mesmas de infecções virais, anemias, dores musculares e problemas digestivos, que são muito mais frequentes na infância.

O segundo é a raridade da doença. Um pediatra atende centenas de crianças com febre, íngua ou dor de barriga ao longo do ano, e a imensa maioria desses casos tem causa benigna. A probabilidade estatística favorece a explicação comum, e isso é correto na maior parte das consultas. O desafio é reconhecer a exceção.

O terceiro é a biologia do tumor. Diferente do câncer no adulto, que costuma levar anos para se desenvolver, os tumores da infância em geral crescem rápido. Uma investigação adiada por algumas semanas pode fazer diferença no estágio em que a doença é encontrada. A boa notícia é que esses mesmos tumores tendem a responder melhor ao tratamento, o que reforça o valor do diagnóstico precoce do câncer infantil.

Em documento técnico sobre o tema, o INCA aponta ainda a dificuldade de acesso à atenção básica e a falta de capacitação específica em oncologia pediátrica como obstáculos para a detecção precoce no país.

As confusões mais frequentes entre câncer infantil e doenças comuns

Cada tipo de tumor pediátrico tem sinais que lembram doenças corriqueiras da infância. Conhecer esses pares ajuda pais e cuidadores a entender por que um sintoma que parece simples pode merecer uma segunda avaliação quando não melhora.

Leucemia confundida com anemia e virose

A leucemia infantil é o tipo de câncer mais comum em crianças. Seus sinais iniciais incluem palidez, cansaço fora do habitual, febre sem foco aparente, manchas roxas que surgem sem pancada e pequenos pontos avermelhados na pele, chamados de petéquias.

Isoladamente, cada um desses sinais tem explicações comuns. A palidez e o cansaço lembram anemia por falta de ferro, a febre lembra uma virose e os roxos nas pernas costumam ser atribuídos às brincadeiras. O ponto de atenção está na combinação: palidez com manchas roxas, febre que vai e volta e cansaço que não melhora formam um conjunto que pede exame de sangue. O hemograma completo é, em geral, o primeiro passo, e ajuda a separar uma anemia simples de uma alteração que precisa de investigação. Os sinais e sintomas da leucemia estão descritos em detalhes no site.

Tumores ósseos confundidos com lesão de esporte

O osteossarcoma e o sarcoma de Ewing são os tumores ósseos mais frequentes em crianças e adolescentes, com maior incidência na fase de estirão. Como essa idade coincide com a prática intensa de esportes, a dor óssea costuma ser atribuída a uma pancada, a uma distensão muscular ou a uma torção.

A diferença está no comportamento da dor. A dor de uma lesão esportiva melhora com repouso ao longo dos dias. A dor de origem tumoral tende a ser localizada sempre no mesmo ponto, persiste por semanas, piora com o tempo, pode acordar a criança à noite e, em alguns casos, vem acompanhada de inchaço ou de um volume palpável. Dor óssea em um só lado que não cede merece exame de imagem.

Tumor cerebral confundido com enxaqueca e virose

Os tumores do sistema nervoso central são o segundo grupo mais comum de câncer na infância. Os sinais mais conhecidos são dor de cabeça persistente, vômitos, especialmente pela manhã, alteração de equilíbrio, mudanças na visão e alterações de comportamento ou de rendimento escolar.

Dor de cabeça e vômito são queixas frequentes em crianças e costumam ser associados a enxaqueca, virose ou até questões emocionais. O sinal de alerta aparece quando a dor de cabeça é progressiva, acorda a criança durante a noite, vem acompanhada de vômitos matinais sem náusea associada a alimento, ou quando surgem sintomas neurológicos como desequilíbrio, fala arrastada ou visão dupla. Entenda os sinais e sintomas dos tumores cerebrais.

Neuroblastoma e tumor de Wilms confundidos com problemas digestivos e urinários

O neuroblastoma e o tumor de Wilms são mais comuns em crianças pequenas, geralmente antes dos cinco anos. Ambos podem se manifestar com aumento do volume da barriga ou com uma massa palpável no abdome, muitas vezes percebida durante o banho ou na troca de roupa.

Barriga distendida em criança pequena costuma ser atribuída a gases ou a intestino preso. No caso do tumor de Wilms, que atinge o rim, a presença de sangue na urina pode ser interpretada como infecção urinária ou consequência de uma queda. O que chama a atenção é uma massa endurecida que não some depois da evacuação, o aumento progressivo do abdome e a presença de sangue na urina sem febre nem ardência. Nesses casos, o ultrassom de abdome costuma ser o exame inicial.

Retinoblastoma confundido com estrabismo comum

O retinoblastoma é um tumor da retina que costuma aparecer nos primeiros anos de vida. O sinal mais característico é um reflexo branco na pupila, chamado de leucocoria, que muitas vezes é notado em fotos tiradas com flash, no lugar do reflexo vermelho habitual. O estrabismo de início recente também pode ser um sinal.

O desvio no olhar costuma ser tratado como estrabismo comum da infância, e o reflexo branco pode ser confundido com catarata congênita ou com um efeito da foto. Por isso, qualquer reflexo branco na pupila deve ser avaliado por um oftalmologista, mesmo que a criança pareça enxergar bem. Saiba como uma foto com flash pode ajudar no diagnóstico do retinoblastoma.

Linfoma confundido com íngua de infecção

Os gânglios aumentados, popularmente chamados de ínguas, são muito comuns na infância e, na maior parte das vezes, representam a resposta do organismo a infecções de garganta, ouvido ou pele. Por isso, o linfoma de Hodgkin e os linfomas não Hodgkin podem ter o primeiro sinal interpretado como uma íngua comum ou como mononucleose.

O gânglio que preocupa é aquele que continua crescendo depois de algumas semanas, que é endurecido e pouco móvel, que fica acima da clavícula ou que vem acompanhado de febre persistente, suor noturno e perda de peso sem explicação.

Sarcomas de partes moles confundidos com hematoma

Os sarcomas de partes moles, como o rabdomiossarcoma, podem aparecer como um caroço ou um inchaço em braços, pernas, cabeça, pescoço ou região genital. Um volume que surge depois de uma brincadeira tende a ser atribuído a um hematoma ou a uma inflamação local.

O hematoma, porém, muda de cor e diminui em poucos dias. O caroço que cresce, não muda de aspecto e não regride em duas a três semanas precisa ser avaliado pelo pediatra.

Dor do crescimento ou algo mais: como diferenciar

Entre todas as confusões, a dor nas pernas é uma das que mais geram dúvida em casa. A chamada dor do crescimento é uma condição benigna e muito comum, que atinge entre 10% e 20% das crianças em alguma fase da vida, segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria. Apesar do nome, não há comprovação de que ela tenha relação com o crescimento dos ossos.

A dor do crescimento tem um padrão bem definido. Ela costuma surgir entre os 3 e os 10 anos, aparece no fim da tarde ou à noite, pode acordar a criança, e desaparece pela manhã. Em cerca de 80% dos casos é bilateral, ou seja, atinge as duas pernas, principalmente coxas, canelas, panturrilhas e a parte de trás dos joelhos. O exame físico é normal: não há inchaço, vermelhidão, mancha nem limitação de movimento, e a criança brinca normalmente durante o dia. Massagem e calor local costumam aliviar.

Alguns sinais indicam que a dor provavelmente não é dor do crescimento e merece investigação:

  • dor em uma perna só, sempre no mesmo lugar;
  • dor que continua durante o dia ou que faz a criança mancar;
  • inchaço, vermelhidão ou calor sobre o osso ou a articulação;
  • dor que piora progressivamente ao longo das semanas;
  • febre, palidez, cansaço, manchas roxas ou perda de peso associados;
  • dor ao apertar o osso, especialmente na canela;
  • rigidez ao acordar, com dificuldade de movimentar a articulação.

A leucemia e os tumores ósseos estão entre as causas que precisam ser descartadas quando esses sinais aparecem. Na leucemia, a dor óssea acontece porque as células doentes ocupam a medula dos ossos, e ela costuma vir junto com outros sinais no sangue. Por isso, diante de dor nas pernas com qualquer um desses sinais de alerta, o pediatra pode pedir hemograma e exames de imagem antes de concluir que se trata de dor do crescimento.

Os sinais de alerta que pedem investigação

A regra prática para pais e cuidadores é simples: o que chama a atenção não é o sintoma isolado, e sim o sintoma que persiste, que piora ou que não tem explicação. De forma geral, vale procurar o pediatra e mencionar a possibilidade de investigação quando houver:

  • febre prolongada ou que volta sem causa aparente;
  • palidez e cansaço excessivo, com perda de interesse por brincadeiras;
  • manchas roxas ou pontos avermelhados na pele sem pancada;
  • dor óssea persistente, localizada ou que acorda a criança;
  • gânglios que crescem ou persistem por mais de algumas semanas;
  • perda de peso sem motivo;
  • dor de cabeça persistente com vômitos, especialmente pela manhã;
  • alteração de equilíbrio, de visão ou de comportamento;
  • aumento do volume da barriga ou massa no abdome;
  • reflexo branco na pupila ou estrabismo de início recente;
  • caroço ou inchaço que cresce e não regride.

A lista completa dos sinais e sintomas dos tumores pediátricos também está disponível no site.

O que fazer quando o sintoma não passa

O primeiro passo é sempre o pediatra que acompanha a criança. Ele conhece o histórico dela e tem condições de avaliar o sintoma no contexto. Algumas atitudes ajudam a tornar essa consulta mais produtiva.

Anotar a evolução é uma delas. Registrar quando o sintoma começou, com que frequência aparece, em que horário e se veio acompanhado de outros sinais dá ao médico informações que dificilmente são lembradas na hora da consulta. Fotos também ajudam, especialmente de manchas na pele, de inchaços e do reflexo dos olhos.

Voltar ao médico quando o quadro não melhora é outra atitude importante. Um sintoma que persiste depois do tratamento indicado para a causa comum, como um antibiótico para a íngua ou um analgésico para a dor, é justamente o que pede reavaliação. Retornar não é exagero: é parte do cuidado.

Se o pediatra solicitar exames ou encaminhar para um especialista, isso não significa que a criança tem câncer. Significa que o sintoma precisa de um olhar mais aprofundado para que as causas sejam esclarecidas. Na maior parte das vezes, a investigação termina com uma explicação benigna, e isso também é um resultado importante.

Por que o tratamento em centro especializado faz diferença

Quando o diagnóstico de câncer é confirmado, o tratamento em um centro com experiência em oncologia pediátrica influencia diretamente as chances de cura. O câncer infantojuvenil tem características próprias, que exigem protocolos específicos, equipe treinada no atendimento de crianças e adolescentes e estrutura para lidar com os efeitos do tratamento em um organismo ainda em desenvolvimento.

O cuidado também vai além do tratamento do tumor. Envolve suporte à família, acompanhamento escolar, cuidado com a nutrição, apoio psicológico e seguimento de longo prazo para monitorar possíveis efeitos tardios.

O A.C.Camargo Cancer Center conta com um Centro de Referência em Tumores Pediátricos, com equipe multidisciplinar dedicada ao diagnóstico e ao tratamento do câncer em crianças e adolescentes.

Perguntas frequentes

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