Manchas roxas, petéquias e hematomas na criança: quando investigar leucemia
Roxo em criança é rotina. O que muda a conversa é o roxo que aparece sem queda, no lugar errado, em quantidade crescente ou acompanhado de palidez e cansaço.
Toda mãe e todo pai de criança pequena convivem com marcas roxas. Elas surgem da queda da bicicleta, do encontrão no sofá, da canela batida na quina da cama. Fazem parte de uma infância ativa e saudável. Justamente por serem tão comuns, é difícil saber quando uma mancha deixa de ser consequência de tombo e passa a ser um sinal que merece atenção.
Este texto explica essa diferença, mas não substitui a avaliação de um pediatra: cada criança tem um contexto próprio, e é o exame clínico que confirma se uma investigação é necessária. Antes de tudo, um esclarecimento necessário: a maioria absoluta das manchas roxas na infância não tem nenhuma relação com câncer. Elas se explicam por trauma, por fragilidade capilar, por deficiência de vitaminas, por infecções virais comuns e por alterações benignas da coagulação. A leucemia é uma causa rara – a incidência estimada é de 3 a 4 casos para cada 100 mil crianças menores de 15 anos, com pico entre 2 e 5 anos de idade, de acordo com dados da Sociedade Brasileira de Pediatria. Mas é uma causa em que o tempo de diagnóstico muda o resultado, e por isso conhecer os sinais e sintomas dos tumores pediátricos tem valor concreto.
Petéquia, equimose e hematoma: três coisas diferentes
Os três termos costumam ser usados como sinônimos na conversa do dia a dia, mas descrevem lesões diferentes, e a diferença importa para o pediatra.
A petéquia é um pontinho vermelho ou arroxeado, do tamanho de uma cabeça de alfinete, geralmente com menos de três milímetros. Aparece em grupos, é plana ao toque e tem uma característica que ajuda muito na identificação: não desaparece quando a pele é esticada ou pressionada. Ela representa o extravasamento de sangue de capilares muito pequenos.
A equimose é a mancha roxa clássica, plana, maior que a petéquia, com aquela evolução de cor conhecida que vai do vermelho ao arroxeado, depois esverdeado e amarelado antes de sumir.
O hematoma é o acúmulo de sangue que forma um relevo, um caroço palpável sob a pele, geralmente associado a trauma mais intenso.
O teste de pressionar a pele
Existe uma verificação simples que qualquer pessoa pode fazer em casa e que ajuda a organizar a informação antes da consulta. Pressione a mancha com o dedo ou estique a pele ao redor dela.
Se a lesão empalidece e volta à cor original quando a pressão é retirada, provavelmente se trata de uma alteração vascular, como um eritema, um hemangioma ou um exantema viral, as manchas avermelhadas que costumam aparecer na pele durante infecções virais comuns, e que por isso às vezes são confundidas com petéquias. Se a mancha permanecer igual, houve extravasamento de sangue para fora do vaso, e é isso que caracteriza petéquias e equimoses.
Esse teste não diagnostica nada sozinho, mas é uma informação útil para levar ao pediatra.
O roxo comum e o roxo que preocupa
A diferença raramente está em uma única mancha. Está no conjunto: onde apareceu, com que história, quantas são e o que veio junto.
O roxo esperado da infância aparece em áreas de impacto, principalmente canelas, joelhos, cotovelos e testa. Tem história compatível, ou seja, alguém lembra da queda. Aparece isolado ou em pequeno número. E evolui de forma previsível, mudando de cor e desaparecendo em uma a duas semanas.
O roxo que merece avaliação tem outro perfil. Aparece em locais improváveis para trauma, como tronco, costas, abdômen, orelhas, pescoço e nádegas. Surge sem que ninguém consiga associar a uma queda. Vem em número crescente, com manchas novas aparecendo enquanto as antigas ainda não sumiram. É desproporcional ao trauma relatado, com uma marca grande depois de um esbarrão leve. Demora muito mais que o habitual para desaparecer. E, principalmente, vem acompanhado de outros sinais.
Os sinais que aparecem junto e mudam a leitura
Uma mancha roxa isolada, em uma criança que segue brincando, comendo e dormindo normalmente, quase nunca é motivo de investigação urgente. O que altera a prioridade é a combinação, e é justamente essa leitura de conjunto que orienta a investigação de câncer infantil.
Palidez. A pele, a mucosa da boca, a parte interna da pálpebra inferior e o leito das unhas ficam mais claros. Às vezes é percebida primeiro por quem não vê a criança todos os dias, porque quem convive se acostuma com a mudança gradual.
Cansaço desproporcional. A criança que sempre correu passa a sentar durante a brincadeira, pede colo com frequência incomum, dorme mais e ainda assim acorda cansada. Na escola, aparece como desistência da educação física ou sono em sala.
Febre prolongada ou recorrente sem foco. Febre que dura semanas ou que reaparece em ciclos, sem que a investigação encontre uma infecção que a explique.
Dor óssea ou articular. Dor nas pernas ou nos braços que acorda a criança à noite, que faz mancar, que se repete sempre na mesma região. É diferente da dor de crescimento, que costuma ser difusa e passageira.
Sangramentos em outras superfícies. Gengiva que sangra durante a escovação sem que haja doença gengival, sangramento nasal frequente e prolongado, sangramento que demora a parar após um pequeno corte.
Gânglios aumentados. Caroços no pescoço, nas axilas ou na virilha que não regridem em algumas semanas. Vale entender o que são os linfonodos antes de interpretar este achado.
Aumento do volume abdominal. Barriga que ficou visivelmente maior, às vezes percebida na hora do banho ou ao vestir a criança.
A leucemia pode ser a causa dessa combinação porque ela ocupa a medula óssea, que é a fábrica das células do sangue. Quando as células doentes tomam esse espaço, a produção normal cai. Faltam plaquetas, e aparecem as manchas e os sangramentos. Faltam glóbulos vermelhos, e aparecem a palidez e o cansaço. Faltam glóbulos brancos saudáveis, e aparecem as infecções e a febre que não cede. É por isso que os sinais vêm em conjunto, e não isolados.
Por que o hemograma resolve grande parte das dúvidas
Esta é a informação mais tranquilizadora do texto, e vale ser dita com clareza: o exame que investiga a suspeita inicial de leucemia é simples, barato, rápido e disponível em qualquer laboratório do país.
O hemograma mede as três linhagens de células do sangue. Ele mostra a contagem de plaquetas, que explica a tendência a manchas e sangramentos. Mostra a hemoglobina e os glóbulos vermelhos, que explicam a palidez e cansaço. Mostra os glóbulos brancos em número e em tipo, e é aqui que costumam aparecer as primeiras alterações sugestivas.
Um hemograma normal em uma criança com manchas roxas afasta a hipótese de leucemia com boa margem de segurança e redireciona a investigação para causas benignas. Um hemograma alterado indica ao pediatra o próximo passo, que pode ser a repetição do exame, exames complementares ou o encaminhamento a um hematologista pediátrico.
Não há razão para postergar esse exame por medo do resultado. Na maior parte esmagadora dos casos, ele traz alívio.

O que fazer antes da consulta
Organize a informação. A consulta rende muito mais quando a família chega com dados em vez de impressões.
Fotografe as manchas com boa iluminação e coloque algo ao lado para dar noção de tamanho, como uma moeda. Anote a data em que cada grupo de manchas apareceu, porque a evolução no tempo é uma informação clínica valiosa. Registre se houve trauma associado. Observe e anote a presença de febre, com a temperatura medida, de sangramento gengival ou nasal, de dor nas pernas, de mudança no apetite, no sono e na disposição. Verifique se houve perda de peso.
Leve também a informação sobre medicamentos em uso, incluindo anti-inflamatórios, e sobre infecções recentes, já que algumas viroses podem provocar queda transitória de plaquetas.
Se as manchas surgirem de forma súbita e em grande quantidade, se houver sangramento que não para, se houver febre alta com prostração importante ou se a criança estiver muito abatida, a avaliação deve ser imediata, em pronto atendimento.

As causas mais prováveis, que não são câncer
Vale insistir neste ponto porque é o cenário mais frequente na vida real.
A causa mais comum de manchas roxas na criança é o trauma, mesmo quando ninguém se lembra dele. Crianças pequenas caem várias vezes por dia e nem sempre reclamam.
A púrpura trombocitopênica imune é uma condição em que o organismo destrói as próprias plaquetas, frequentemente desencadeada por uma infecção viral recente. Provoca petéquias e manchas roxas de aparecimento súbito em criança que, fora isso, está bem. Diferente da leucemia, não vem acompanhada de palidez ou cansaço e costuma ser autolimitada.
Infecções virais comuns podem reduzir temporariamente as plaquetas. A dengue merece menção à parte, porque pode cursar com petéquias e é um diagnóstico diferencial a considerar em crianças com manchas e febre no Brasil.
Deficiências nutricionais, alterações hereditárias da coagulação, uso de anti-inflamatórios e fragilidade capilar completam a lista das causas benignas.
Quando a suspeita se confirma
Se a investigação apontar para leucemia, o encaminhamento é para um serviço de oncologia pediátrica. A confirmação exige análise da medula óssea e exames complementares que definem o subtipo da doença.
A leucemia é o câncer mais frequente na infância, e também um dos que melhor respondem ao tratamento. A quimioterapia é o pilar terapêutico, e as crianças costumam responder bem a ela. Você pode entender melhor os sinais e sintomas da leucemia, conhecer os detalhes de diagnóstico e tratamento na página sobre leucemia infantil e desfazer confusões comuns nos mitos e verdades sobre leucemia.
Em parte dos casos, o tratamento inclui o transplante de medula óssea, procedimento que substitui a medula doente por células saudáveis e que depende de doadores compatíveis, como mostra o infográfico sobre como funciona a doação de medula óssea. O A.C.Camargo Cancer Center reúne um Centro de Referência em Tumores Pediátricos e um Centro de Referência em Neoplasias Hematológicas, que respondem pelo tratamento das leucemias da infância.