Caroço no pescoço da criança: quando investigar - A.C.Camargo Pular para o conteúdo principal
 
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Caroço e íngua no pescoço da criança: quando é infecção e quando investigar

Quase todo caroço no pescoço de criança é um gânglio reagindo a uma infecção. O que separa o achado banal do achado que precisa de avaliação é o tamanho, a consistência, o tempo e a companhia.

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A cena é conhecida: durante o banho ou ao pentear o cabelo, a mão encontra um carocinho no pescoço da criança que não estava ali antes. A reação imediata costuma ser preocupação, e a busca que vem em seguida costuma trazer resultados alarmantes. Vale começar pelo dado que organiza tudo o mais: gânglios palpáveis no pescoço são achados comuns e esperados na infância, e a imensa maioria deles corresponde ao funcionamento normal do sistema de defesa do organismo.

 

Este texto explica o que é esse caroço, por que ele aparece com tanta frequência em crianças, quais características diferenciam o gânglio reativo do gânglio que merece investigação e em que momento a espera deixa de ser adequada.

O que é a íngua, tecnicamente

"Íngua" é o nome popular de um linfonodo aumentado. Os linfonodos, também chamados de gânglios linfáticos, são pequenas estruturas distribuídas por todo o corpo, ligadas entre si pelos vasos linfáticos, e funcionam como postos de vigilância do sistema imunológico.

 

Quando um agente infeccioso entra pela garganta, pelo ouvido, pelos dentes ou por um ferimento na pele, ele é levado pela linfa até o linfonodo mais próximo daquela região. Ali as células de defesa se multiplicam para combatê-lo. Essa multiplicação aumenta o volume do gânglio, e é isso que se sente como caroço. Ou seja, o gânglio aumentado é sinal de que o sistema imunológico está trabalhando, não necessariamente de que algo está errado.

 

O pescoço concentra uma quantidade grande de linfonodos porque drena a garganta, as amígdalas, os ouvidos, os dentes, o couro cabeludo e a face, que são justamente as regiões onde a criança mais tem infecções. Se quiser entender melhor a anatomia envolvida, vale a leitura sobre o que são os linfonodos.

Por que acontece tanto na infância

Existe uma explicação simples e tranquilizadora para a frequência desse achado nos primeiros anos de vida.

 

O sistema imunológico da criança está em fase de formação. Cada vírus e cada bactéria com que ela tem contato é uma novidade, e cada contato gera uma resposta. Crianças em creche e nos primeiros anos escolares podem ter até oito a doze infecções respiratórias por ano, segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, o que é considerado normal. Cada uma dessas infecções pode deixar gânglios aumentados por semanas depois que os sintomas passaram.

 

Some-se a isso o fato de que crianças pequenas têm menos gordura no pescoço, o que torna os gânglios muito mais fáceis de palpar do que em um adulto. O mesmo linfonodo que passaria despercebido em um adulto pode ser percebido em uma criança de três anos.

O caroço tranquilizador e o caroço que pede avaliação

A avaliação não se faz por uma característica isolada, e sim pela combinação delas.

 

O gânglio reativo, que corresponde à grande maioria dos casos, costuma medir menos de dois centímetros. É macio ou elástico ao toque, move-se sob a pele quando empurrado com o dedo, muitas vezes dói ou incomoda quando pressionado, aparece durante ou logo depois de uma infecção identificável, como dor de garganta, resfriado, otite, cárie ou uma ferida no couro cabeludo, e regride ao longo de duas a quatro semanas. Pode demorar mais para desaparecer por completo, e isso é normal.

 

O gânglio que merece investigação tem outro conjunto de características. É endurecido, com consistência descrita como pétrea ou de borracha firme. É fixo, ou seja, não se move quando empurrado, porque está aderido a planos profundos. Costuma ser indolor, o que confunde muita gente, já que a ausência de dor é interpretada como sinal de que não é nada. Cresce progressivamente ao longo das semanas em vez de regredir. Ultrapassa dois centímetros e continua aumentando. Persiste por mais de quatro a seis semanas sem qualquer redução. Não tem infecção identificável que o justifique. Ou aparece em conjunto, formando um agrupamento de vários gânglios endurecidos.

As localizações que merecem atenção redobrada

A posição do caroço no pescoço carrega informação clínica.

 

Gânglios na cadeia lateral do pescoço, logo abaixo do ângulo da mandíbula, são os mais comuns e os mais frequentemente reativos a infecções de garganta e ouvido. Gânglios na região occipital, na nuca, costumam responder a infecções do couro cabeludo, incluindo piolho e dermatite seborreica, e são muito comuns em bebês.

 

Já o gânglio localizado na região supraclavicular, logo acima da clavícula, exige avaliação independentemente das demais características. Essa localização drena estruturas do tórax e do abdome e é a que menos se explica por infecções banais.

Os sinais de acompanhamento que mudam a prioridade

Um caroço isolado em uma criança saudável, que come, brinca e dorme normalmente, tem significado muito diferente do mesmo caroço acompanhado de outros achados.

 

Preocupam a febre prolongada ou que retorna em ciclos sem foco identificado, o suor noturno intenso a ponto de molhar o pijama e a roupa de cama, a perda de peso sem explicação, o cansaço persistente e a palidez, a coceira generalizada pelo corpo sem lesão de pele que a justifique, o aumento do volume abdominal, a presença simultânea de gânglios aumentados em outras regiões, como axilas e virilhas, e o surgimento de manchas roxas ou pontinhos vermelhos na pele.

 

A combinação de febre, suor noturno e perda de peso, o que os médicos chamam de “sintomas B”, é levada a sério justamente por sua associação com linfomas. Já a combinação de gânglios aumentados com palidez, cansaço e manchas roxas orienta a investigação para leucemia infantil.

 

Ainda assim, e isso precisa ser dito com todas as letras, mesmo essa combinação tem causas benignas muito mais frequentes, como a mononucleose infecciosa, popularmente conhecida como doença do beijo, que cursa com gânglios volumosos, febre prolongada e cansaço importante em adolescentes.

Caroço na cabeça do bebê: um caso à parte

Uma parte grande das buscas de pais e mães não se refere ao pescoço, e sim a um caroço percebido na cabeça do bebê, muitas vezes descrito como parecido com um galo.

 

Na primeira infância, a maioria desses achados tem explicação benigna e estrutural. Podem ser gânglios occipitais reativos, muito comuns em bebês. Podem ser as próprias características ósseas do crânio em formação, incluindo o osso occipital proeminente e as bordas das suturas cranianas, que se tornam palpáveis conforme os ossos se aproximam. Podem ser cistos sebáceos, lipomas e outras lesões benignas de pele e tecido subcutâneo. Podem ainda ser hemangiomas, tumores vasculares benignos que costumam aparecer nas primeiras semanas de vida e regredir espontaneamente.

 

O que exige avaliação nessa região é o caroço que cresce de forma rápida e progressiva, o que é endurecido e fixo ao osso, o que vem acompanhado de alteração neurológica, de vômitos, de irritabilidade importante ou de aumento anormal do perímetro cefálico, e o que se associa a dor de cabeça persistente em criança maior. A dor de cabeça que piora ao acordar e vem com vômito é o padrão que mais preocupa em relação aos tumores cerebrais infantis.

Quanto tempo esperar antes de procurar o pediatra

A resposta prática, que serve como regra geral: se o caroço apareceu junto de uma infecção evidente, a criança está bem e o gânglio é móvel e macio, é razoável observar por duas a quatro semanas. A maioria regride nesse intervalo.

 

Procure o pediatra sem esperar esse prazo se o caroço tem mais de dois centímetros, se é endurecido ou fixo, se está acima da clavícula, se cresce de uma semana para outra, se há febre prolongada, suor noturno ou perda de peso, se há gânglios aumentados em mais de uma região do corpo, se a criança está pálida ou muito cansada, ou se a pele sobre o caroço está vermelha, quente e dolorosa, o que sugere infecção do próprio gânglio e costuma exigir antibiótico.

 

Passadas quatro a seis semanas sem qualquer redução, a avaliação deixa de ser opcional, mesmo que a criança esteja aparentemente bem.

 

Pediatra palpando com as duas mãos a lateral do pescoço de uma criança sentada na maca, com a mãe acompanhando ao fundo.

 

O que o pediatra costuma fazer

O exame começa pelas mãos. O pediatra palpa todas as cadeias de gânglios do corpo, examina garganta, ouvidos, boca, dentes e couro cabeludo procurando a porta de entrada da infecção, e verifica se o baço ou o fígado estão aumentados.

 

Dependendo do quadro, o pediatra pode lançar mão de exames de sangue, como o hemograma, que avalia as três linhagens do sangue, e sorologias para infecções específicas, como mononucleose e toxoplasmose, além da ultrassonografia cervical, exame de imagem que descreve tamanho, forma, vascularização e arquitetura interna do gânglio com boa precisão e sem radiação.

 

Se essas informações não bastarem, ou se as características do gânglio forem preocupantes desde o início, a biópsia é o exame que fecha o diagnóstico. Ela é indicada com critério e não é a primeira medida na maioria dos casos.

 

Criança acordada e tranquila em uma maca segurando a mão da mãe enquanto uma profissional apoia o transdutor de ultrassom no pescoço.

Quando a investigação aponta para linfoma

Entre os cânceres que se manifestam primeiro por um caroço no pescoço, o linfoma é o mais frequente na faixa etária pediátrica, e um dos primeiros sinais do linfoma de Hodgkin pode ser exatamente um carocinho no pescoço, indolor e persistente.

 

Os linfomas são o terceiro grupo mais comum de câncer na infância e na adolescência, atrás das leucemias e dos tumores do sistema nervoso central, de acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria. Dividem-se em linfoma de Hodgkin e linfoma não Hodgkin, que têm comportamentos e tratamentos distintos. Os sinais e sintomas dos linfomas ajudam a entender a diferença.

 

A notícia relevante é que os linfomas na infância estão entre os cânceres com melhores resultados de tratamento, especialmente quando diagnosticados nos estágios iniciais. É mais uma razão para não adiar a avaliação de um gânglio que persiste, e nenhuma razão para tratar cada caroço como emergência.

 

O A.C.Camargo Cancer Center mantém um Centro de Referência em Tumores Pediátricos, com equipe multidisciplinar de oncologia pediátrica, e um Centro de Referência em Neoplasias Hematológicas, que responde pelo tratamento dos linfomas.

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