Síndrome carcinoide: diarreia, vermelhidão e palpitação podem ser sinais de tumor neuroendócrino
Sintomas comuns, quando aparecem juntos e em crises, podem estar ligados a tumores que produzem hormônios. Especialistas do A.C.Camargo explicam o que observar e como é feita a investigação.
Diarreia que vai e volta, vermelhidão repentina no rosto, palpitações, dor abdominal ou tosse persistente. Isoladamente, esses sintomas têm muitas causas e dificilmente levam alguém a pensar em câncer. Em uma parcela dos casos, porém, eles podem estar relacionados a um tumor neuroendócrino (TNE), um grupo de doenças bastante diverso, capaz de surgir em diferentes partes do corpo.
Quando esses tumores liberam hormônios em excesso, o conjunto de sintomas recebe o nome de síndrome carcinoide. Conhecer esse quadro ajuda a entender por que sinais aparentemente banais merecem atenção quando se repetem sem explicação.
O que é um tumor neuroendócrino
Os tumores neuroendócrinos nascem de células especializadas, espalhadas pelo organismo, que conseguem produzir hormônios.
"Esses tumores surgem em células endócrinas, que têm capacidade de produzir hormônios. Por isso, são chamados de neuroendócrinos. Elas atuam gerenciando as funções de outras células e, por isso, estão presentes em todo o corpo", explica a Dra. Rachel Riechelmann, head da Oncologia Clínica e líder do Centro de Referência em Tumores Neuroendócrinos do A.C.Camargo Cancer Center.
Pulmão, pâncreas, estômago e intestino estão entre os órgãos que têm células endócrinas. "Cerca de 2/3 dos casos surgem no aparelho digestivo, em especial no intestino delgado, no reto, no pâncreas, no apêndice e no estômago. O pulmão é o segundo grande grupo, com aproximadamente um quarto dos casos", afirma o Dr. Felipe Coimbra, cirurgião oncológico e líder do Centro de Referência em Tumores do Aparelho Digestivo Alto do A.C.Camargo.
A incidência desses tumores tem crescido. Um estudo publicado em 2025 na revista JAMA Network Open analisou mais de 145 mil casos nos Estados Unidos e mostrou que a taxa passou de 1,64 para 8,52 casos por 100 mil habitantes entre 1975 e 2021, um aumento de cerca de cinco vezes. Segundo os autores, a alta foi impulsionada principalmente pelo diagnóstico de mais tumores em estágios iniciais, muitas vezes encontrados em exames feitos por outros motivos.
Tumores bem diferenciados e pouco diferenciados
Existem dezenas de tipos de tumores neuroendócrinos, com comportamentos muito diferentes. Os chamados tumores bem diferenciados mantêm características parecidas com as das células normais do órgão em que surgiram e costumam ter evolução lenta. Já os carcinomas neuroendócrinos pouco diferenciados perderam essa semelhança e tendem a se comportar de forma mais agressiva.
Tumores funcionantes e não funcionantes
Outra divisão importante considera a produção de hormônios. A maioria dos casos é de tumores não funcionantes: eles não liberam hormônios em excesso, não causam sintomas hormonais e geralmente são descobertos em exames de imagem feitos por outra razão. Nesses casos, as manifestações, quando existem, se relacionam à presença da massa tumoral, como dor abdominal, aumento do volume do fígado, problemas de digestão, perda de peso sem explicação, sangramentos ou obstrução intestinal.
Os tumores que produzem hormônios ou outras substâncias em quantidade suficiente para provocar sintomas são chamados de funcionantes. É nesse grupo que aparece a síndrome carcinoide.
Síndrome carcinoide: por que diarreia, vermelhidão e palpitação aparecem juntas
A síndrome carcinoide é um dos quadros mais conhecidos entre os tumores neuroendócrinos funcionantes. Em geral, o tumor está no intestino ou no pulmão e libera substâncias como serotonina e histamina, que agem sobre os vasos sanguíneos, o intestino e o coração.
Os principais sinais da síndrome carcinoide são:
- Rubor no rosto e no pescoço: vermelhidão repentina, que pode vir acompanhada ou não de palpitações;
- Diarreia: a serotonina acelera o trânsito intestinal e favorece episódios de diarreia que vão e voltam;
- Palpitações: sensação de coração acelerado, muitas vezes junto com o rubor;
- Falta de ar: também pode ocorrer em algumas crises.
O Dr. Felipe Coimbra explica que, em geral, o fígado neutraliza esses hormônios antes que eles cheguem ao restante do corpo. Por isso, a síndrome carcinoide costuma aparecer quando já existem metástases no fígado, que lançam os hormônios diretamente na circulação. "A suspeita deve surgir quando esses sintomas se repetem em crises, sem explicação e principalmente quando aparecem juntos", diz o especialista.
Como diferenciar o rubor da síndrome carcinoide
Uma das dificuldades é que os sintomas são vagos, intermitentes e imitam problemas muito frequentes. A diarreia crônica pode ser atribuída à síndrome do intestino irritável ou a uma intolerância alimentar. A dor abdominal pode ser confundida com gastrite. O rubor pode parecer menopausa, alergia ou rosácea.
Segundo a Dra. Rachel Riechelmann, a vermelhidão associada à síndrome carcinoide costuma ser seca, sem a transpiração intensa típica dos fogachos, e pode ser desencadeada por álcool e por alguns alimentos, como banana e chocolate. Essa diferença não substitui a avaliação médica, mas ajuda o paciente a relatar com mais precisão o que sente durante a consulta.
Quando a síndrome carcinoide afeta o coração
Se a produção hormonal persistir sem tratamento, o problema pode ir além do desconforto. As substâncias liberadas pelo tumor podem causar alterações nas válvulas cardíacas e, em casos avançados, levar à insuficiência cardíaca. Essa complicação é chamada de cardiopatia carcinoide e é um dos motivos pelos quais o controle dos hormônios é tão importante quanto o tratamento do tumor.
Outros sinais conforme o órgão de origem
A liberação de hormônios pode envolver outros órgãos, e os sintomas mudam de acordo com o local em que o tumor surgiu:
- Pulmão: tosse persistente, chiado e pneumonias de repetição no mesmo local são sinais de alerta. Saiba mais sobre os tumores de pulmão;
- Pâncreas: alguns tumores produzem insulina e provocam quedas de glicose, com tremores, suor frio e até desmaios. Outros liberam gastrina e podem causar úlceras que não melhoram com o tratamento habitual. Conheça mais sobre os tumores de pâncreas;
- Feocromocitoma: é um tipo muito raro, que pode produzir adrenalina. O sintoma principal é a pressão alta, associada a dor de cabeça forte, palpitação e, muitas vezes, irritabilidade.
Nos tumores do aparelho digestivo, a presença de sangue nas fezes ou a obstrução intestinal também podem estar entre as manifestações, embora esses sinais tenham muitas outras causas.
Por que o diagnóstico costuma demorar
Como os sintomas se parecem com os de doenças comuns, o caminho até o diagnóstico pode ser longo. De acordo com o Dr. Felipe Coimbra, estudos internacionais apontam historicamente um intervalo de cinco a sete anos entre os primeiros sintomas e o diagnóstico, e uma parcela expressiva dos pacientes já chega com metástases. No Brasil, não há dados equivalentes.
Por isso, a recomendação é não ignorar sintomas que se repetem em crises e procurar um médico quando eles aparecem em conjunto, sem uma causa clara.
Como é feito o diagnóstico do tumor neuroendócrino
A investigação pode começar com exames de imagem, como tomografia, ressonância magnética e raio-x, ou com endoscopia e colonoscopia, dependendo dos sintomas e da suspeita.
"O diagnóstico final é feito por meio da biópsia. Ela é mandatária para definir o tipo, o grau e várias outras características importantes, incluindo a produção de hormônios", afirma a Dra. Rachel Riechelmann.
Entre os parâmetros avaliados na biópsia está o Ki-67, um marcador que indica a velocidade de multiplicação das células tumorais. Quanto maior esse índice, maior tende a ser o grau do tumor e o seu potencial de agressividade.
Também existem exames especializados de medicina nuclear. Um deles é o PET-CT com gálio-68-DOTATATE, que usa moléculas capazes de se concentrar em receptores presentes na superfície de muitos desses tumores. Assim, o exame revela lesões que a tomografia convencional pode não mostrar.
Fatores de risco
Segundo o Dr. Felipe Coimbra, o tumor neuroendócrino não tem um perfil de risco bem definido, como acontece com o tabagismo no câncer de pulmão. O pico de diagnóstico ocorre entre os 50 e os 70 anos, com leve predomínio em mulheres em alguns tipos.
"Uma menor parte, em torno de 10%, está ligada a síndromes hereditárias, como a neoplasia endócrina múltipla tipo 1 e a doença de von Hippel-Lindau. Nesses casos, os tumores aparecem mais cedo, muitas vezes em mais de um órgão, e a família precisa ser avaliada", diz o cirurgião.
Tratamento depende de muitos fatores
A escolha do tratamento leva em conta a localização, o tipo e o grau do tumor, a presença de metástases, a produção de hormônios e as características genéticas. Por isso, cada caso costuma ser discutido por uma equipe multidisciplinar, em reuniões conhecidas como Tumor Board.
Cirurgia e procedimentos endoscópicos
Quando o tumor está restrito ao órgão de origem e aos gânglios próximos, a cirurgia costuma ser a principal estratégia e pode oferecer possibilidade de cura. Lesões pequenas e selecionadas do reto e do estômago podem ser retiradas por endoscopia. Em alguns tumores de risco muito baixo, o acompanhamento também pode ser uma opção. Mesmo quando há metástases, a cirurgia não necessariamente sai de cena.
Tratamento das lesões no fígado
As metástases no fígado também podem ser tratadas por embolização, técnica que bloqueia o fluxo de sangue dos vasos que alimentam o tumor. Em situações muito selecionadas, pode haver indicação de transplante de fígado.
Medicamentos e radiofármacos
Outros recursos incluem medicamentos hormonais, terapias-alvo, quimioterapia, imunoterapia em situações específicas e radiofármacos. Os radiofármacos funcionam como um tratamento de precisão: uma molécula é ligada a um elemento radioativo e direcionada às células tumorais, levando a radiação diretamente até elas.
Segundo a Dra. Rachel Riechelmann, há pesquisas com novos medicamentos, radiofármacos e estratégias para reduzir efeitos colaterais, como o uso de doses menores mantendo a eficácia. A cirurgia minimamente invasiva, incluindo as técnicas robóticas, também amplia as possibilidades em casos selecionados. Pacientes interessados podem conhecer como funcionam os estudos clínicos.
Para muitos pacientes, o tumor neuroendócrino é acompanhado como uma doença crônica, com o objetivo de controlar a doença e preservar a rotina, o trabalho e a convivência com a família. Leia também a notícia Conscientização sobre Tumores Neuroendócrinos.
Atendimento especializado em tumores neuroendócrinos
O A.C.Camargo conta com um Centro de Referência em Tumores Neuroendócrinos, com equipe multidisciplinar dedicada ao diagnóstico e ao tratamento desses tumores.
Se você tem sintomas que se repetem sem explicação, procure avaliação médica. Para marcar uma consulta ou um exame, acesse a página de agendamentos ou encontre um médico do A.C.Camargo.
Perguntas frequentes
É um conjunto de sintomas causado por alguns tumores neuroendócrinos que liberam substâncias como serotonina e histamina. Os sinais mais comuns são rubor no rosto e no pescoço, diarreia e palpitações, que costumam aparecer em crises.
Os tumores neuroendócrinos são considerados cânceres, mas o comportamento varia muito. Os bem diferenciados costumam ter evolução lenta, enquanto os carcinomas pouco diferenciados tendem a ser mais agressivos.
Quando o tumor está restrito ao órgão de origem e aos gânglios próximos, a cirurgia pode oferecer possibilidade de cura. Nos demais casos, o tratamento busca controlar a doença e os sintomas por longos períodos.
A gravidade depende do tipo, do grau, da localização e da presença de metástases. Quando há produção hormonal sem tratamento, pode haver complicações, como alterações nas válvulas do coração.
A investigação usa exames de imagem, endoscopia ou colonoscopia e exames de medicina nuclear, como o PET-CT com gálio-68. A confirmação vem da biópsia, que define o tipo e o grau do tumor.
Não. Esses sintomas têm muitas causas comuns, como intolerâncias alimentares, alergias e menopausa. A suspeita aumenta quando aparecem juntos e em crises, sem explicação, e por isso a avaliação médica é importante.