Protonterapia no câncer infantil - A.C.Camargo Pular para o conteúdo principal

Protonterapia: o que é e o que muda no tratamento do câncer infantil

Publicado em:

Protonterapia: o que é e o que muda no tratamento do câncer infantil

Publicado em:
9 minuto(s) de leitura

Protonterapia

9 minuto(s) de leitura
Protonterapia

O Brasil terá seu primeiro centro de protonterapia, uma modalidade de radioterapia que utiliza prótons no lugar de fótons para destruir células tumorais. A técnica interessa de perto à oncologia pediátrica, e é importante entender por quê.

A protonterapia voltou ao noticiário brasileiro com o anúncio do primeiro centro do país dedicado à técnica, que será instalado na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, com previsão de iniciar os atendimentos em 2030. O projeto foi viabilizado por um investimento de R$ 132,6 milhões da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), órgão vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, e está sendo desenvolvido em parceria com o Instituto Nacional de Câncer (Inca). Segundo a Finep, ao menos 60% da capacidade de atendimento será destinada a pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS), com prioridade para crianças e adolescentes com câncer.

O anúncio explica o aumento das buscas pelo termo, mas a pergunta que interessa às famílias é outra: o que a protonterapia realmente muda no tratamento do câncer, especialmente em crianças. A resposta exige separar o que a técnica entrega do que ela não entrega.

O que é protonterapia

Protonterapia é uma modalidade de radioterapia que usa feixes de prótons, partículas com carga positiva, em vez dos fótons empregados na radioterapia convencional. O objetivo é o mesmo, danificar o material genético das células tumorais até que elas não consigam mais se multiplicar. O que muda é a forma como a radiação se distribui dentro do corpo.

Para entender o que está em jogo, vale recuperar como funciona a radioterapia convencional. No tratamento com fótons, o feixe atravessa o corpo do paciente: deposita energia ao entrar, deposita a maior parte dela na região do tumor e continua depositando energia depois de passar por ele, até sair do outro lado. Parte da dose, portanto, atinge tecidos saudáveis que estão no caminho de entrada e de saída do feixe.

Prótons e fótons: a diferença na prática

O próton se comporta de outro modo. Ele libera pouca energia enquanto atravessa os tecidos, concentra a maior parte da dose em uma profundidade determinada, que é ajustada para coincidir com o tumor, e para ali. Esse comportamento é conhecido na física médica como pico de Bragg.

Na prática clínica, isso significa duas coisas. A primeira é que a dose entregue ao tumor pode ser alta e bem delimitada. A segunda, e é ela que sustenta o interesse pela técnica, é que praticamente não existe dose de saída: os tecidos que ficam atrás do tumor recebem muito pouca radiação ou nenhuma.

Esse ganho de precisão é o que aproxima a protonterapia da oncologia pediátrica. Quando o tumor está encostado em uma estrutura que não pode ser irradiada sem consequências, como o tronco cerebral, o nervo óptico, a medula espinhal ou o coração, poupar o tecido vizinho deixa de ser um detalhe técnico e passa a ser o centro da decisão.

O primeiro centro de protonterapia do Brasil

A protonterapia foi aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 2017, mas o Brasil ainda não possui nenhuma unidade em funcionamento. Na prática, pacientes com indicação para o tratamento dependem hoje de centros no exterior, o que restringe o acesso a quem consegue custear ou obter autorização para o deslocamento.

O novo centro muda esse cenário, com duas ressalvas importantes. A primeira é de prazo: a previsão de início dos atendimentos é 2030, e até lá a rota do exterior segue sendo a única disponível no país. A segunda é de escopo: nem todo paciente com câncer tem indicação de protonterapia, e a incorporação da técnica à tabela do SUS depende de análise do Ministério da Saúde.

Vale registrar que a radioterapia praticada hoje no Brasil já evoluiu de forma significativa. Os aceleradores lineares de partículas usados nos serviços de referência permitem modular a intensidade do feixe, acompanhar o tumor por imagem durante a sessão e reduzir de forma consistente a dose entregue aos tecidos saudáveis. A protonterapia é um passo adicional nessa direção, não a primeira tentativa de resolver o problema.

Por que a técnica é relevante na oncologia pediátrica

A chegada da protonterapia é considerada especialmente relevante para o tratamento de crianças e adolescentes. Segundo o Inca, o Brasil registra cerca de 8 mil novos casos de câncer infantojuvenil por ano.

Dois fatores explicam o peso da técnica nessa faixa etária. O primeiro é biológico: crianças estão em desenvolvimento, e tecidos em crescimento são mais sensíveis aos efeitos da radiação do que tecidos de um organismo adulto. O segundo é de horizonte de tempo. Cerca de 80% das crianças com câncer são curadas, e uma criança curada aos 6 anos convive com as consequências do tratamento por décadas. Preservar tecido saudável, nesse contexto, é preservar qualidade de vida adulta.

De acordo com a Dra. Viviane Sonaglio, oncologista pediátrica e líder do Centro de Referência de Tumores Pediátricos do A.C.Camargo Cancer Center, a maior precisão da técnica contribui para reduzir os efeitos colaterais provocados pela radiação ao longo do tratamento.

Os efeitos tardios que a técnica busca reduzir

Os efeitos colaterais que preocupam a oncologia pediátrica não são apenas os que aparecem durante as sessões, como as reações de pele, já bem descritas nos efeitos da radioterapia sobre a pele. A atenção maior está nos efeitos tardios, aqueles que se manifestam anos depois do fim do tratamento.

Segundo a especialista, a protonterapia pode reduzir alterações no crescimento, déficits cognitivos, problemas cardíacos e auditivos, além do risco de desenvolvimento de um segundo câncer no futuro. Esse último ponto merece destaque, porque o risco de um segundo tumor está relacionado à quantidade de tecido saudável irradiado ao longo do tratamento. Menos tecido exposto tende a significar menos risco acumulado.

O acompanhamento de longo prazo desses pacientes, portanto, faz parte do próprio tratamento. É por isso que serviços de oncologia pediátrica estruturados mantêm equipes multidisciplinares acompanhando crescimento, desenvolvimento cognitivo, função cardíaca e audição muito depois da alta oncológica.

Quais tumores podem se beneficiar

Segundo a Dra. Viviane Sonaglio, os tumores cerebrais estão entre as principais indicações, principalmente em crianças pequenas, em que o cérebro ainda está em pleno desenvolvimento e a irradiação de áreas saudáveis tem impacto direto sobre aprendizado, memória e crescimento.

Também podem se beneficiar alguns tumores da medula e sarcomas, incluindo os rabdomiossarcomas, tumores originados em células musculares, quando estão localizados próximos ao coração. O raciocínio é sempre o mesmo: quanto mais crítico o órgão vizinho, maior o valor de uma técnica que reduz a dose entregue fora do alvo.

O mesmo vale para outros sarcomas e para tumores do sistema nervoso central em geral, avaliados caso a caso conforme o tipo, o estágio e a proximidade de estruturas sensíveis. Já nas leucemias, que respondem pela maior fatia dos diagnósticos na infância, o tratamento é conduzido de outra forma, com quimioterapia sistêmica como base, como explica o conteúdo sobre leucemia infantil.

A protonterapia substitui a radioterapia convencional?

Não. A protonterapia não substitui a radioterapia convencional em todos os casos, e essa é uma informação central para as famílias que acompanham o assunto. A indicação depende da localização do tumor e da proximidade de órgãos considerados críticos, e é definida caso a caso pela equipe médica responsável.

Há um segundo esclarecimento igualmente importante. Embora seja uma tecnologia mais precisa, a protonterapia não aumenta, necessariamente, as chances de cura em relação à radioterapia convencional. O ganho esperado está em outro lugar. "Quando falamos em protonterapia na criança, pensamos muito mais em um melhor desfecho relacionado à toxicidade do tratamento do que em aumento da taxa de cura", afirma a Dra. Viviane Sonaglio.

Em outras palavras: para a maior parte das indicações pediátricas, a expectativa é curar tantas crianças quanto se cura hoje, com menos sequelas ao longo da vida. É um objetivo diferente, e não menos relevante.

Isso também significa que a ausência de indicação de protonterapia não representa um tratamento inferior. Radioterapia convencional moderna, quimioterapia, cirurgia e terapias-alvo continuam sendo a base do tratamento oncológico pediátrico, combinadas conforme o tipo de tumor e o estágio da doença.

O que isso muda para as famílias agora

No curto prazo, o anúncio não altera a conduta de quem está em tratamento. O centro do Rio de Janeiro tem previsão de operação para 2030, e as decisões terapêuticas de hoje continuam sendo tomadas com os recursos disponíveis hoje, que são numerosos e eficazes.

O que muda é o horizonte. Um centro nacional de protonterapia com prioridade para pacientes pediátricos do SUS significa que, no futuro, uma parcela das crianças com tumores em regiões críticas poderá receber esse tipo de tratamento sem depender de deslocamento internacional.

Enquanto isso, o ponto de partida segue sendo o diagnóstico precoce. Reconhecer os sinais e sintomas dos tumores pediátricos e procurar avaliação especializada continua sendo o fator que mais influencia as chances de cura e a intensidade do tratamento necessário.

Se você tem dúvidas sobre o tratamento indicado para o seu caso ou para o caso de uma criança da família, agende uma consulta ou encontre um especialista do A.C.Camargo Cancer Center.

Perguntas frequentes sobre protonterapia

Protonterapia é uma modalidade de radioterapia que utiliza feixes de prótons em vez de fótons para destruir células tumorais. Os prótons concentram a dose de radiação na profundidade do tumor e param ali, o que reduz a exposição dos tecidos saudáveis vizinhos.

A radioterapia convencional usa fótons, que atravessam o corpo e depositam radiação antes e depois do tumor. A protonterapia usa prótons, que depositam a maior parte da energia na região do tumor e não seguem adiante. O resultado esperado é menos dose entregue a tecidos saudáveis, e não necessariamente maior chance de cura.

Não necessariamente. Para a maioria das indicações, a expectativa é obter resultados de controle da doença semelhantes aos da radioterapia convencional, com menor toxicidade. O ganho principal está na redução de efeitos colaterais e de efeitos tardios, especialmente em crianças.

A indicação depende da localização do tumor e da proximidade de órgãos considerados críticos. Tumores cerebrais em crianças pequenas, alguns tumores de medula e sarcomas próximos ao coração estão entre as principais indicações. A decisão é sempre individual e cabe à equipe médica que acompanha o paciente.

Não. A técnica foi aprovada pela Anvisa em 2017, mas o país ainda não tem nenhuma unidade em funcionamento. O primeiro centro será instalado na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, com previsão de iniciar os atendimentos em 2030.

Segundo a Finep, ao menos 60% da capacidade de atendimento do novo centro será destinada a pacientes do SUS, com prioridade para crianças e adolescentes. A incorporação formal da técnica aos protocolos do sistema público depende de análise do Ministério da Saúde.

Porque crianças estão em desenvolvimento e seus tecidos são mais sensíveis à radiação, e porque a maioria delas será curada e conviverá com os efeitos do tratamento por muitas décadas. Reduzir a dose entregue a tecidos saudáveis diminui o risco de alterações no crescimento, déficits cognitivos, problemas cardíacos e auditivos e de um segundo tumor no futuro.