Hemangioma infantil: o que é e quando tratar - A.C.Camargo Pular para o conteúdo principal
 
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Hemangioma infantil: o que é, quando desaparece e quando investigar

O hemangioma infantil é um tumor benigno formado por vasos sanguíneos. Aparece em cerca de 3% dos recém-nascidos, cresce nos primeiros meses, regride sozinho na maioria dos casos e não aumenta o risco de a criança desenvolver câncer.

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A palavra "tumor" assusta, e é compreensível. Mas tumor significa apenas crescimento de tecido, e existem tumores benignos e malignos. O hemangioma infantil pertence ao primeiro grupo, e com folga: é a lesão vascular benigna mais comum da infância, não é câncer, não vira câncer e não aumenta o risco de a criança desenvolver câncer no futuro.

 

Ainda assim, a mancha vermelha que aparece no rosto, na cabeça, no pescoço ou no tronco do bebê gera dúvidas legítimas. Por que cresce? Quando para? Precisa tratar? Vai deixar marca? Este texto responde a essas perguntas.

O que é o hemangioma infantil

O hemangioma infantil é uma proliferação benigna de células que formam vasos sanguíneos, chamadas células endoteliais. Essa multiplicação cria um emaranhado de vasos que aparece na pele como uma mancha ou uma saliência avermelhada.

 

Ele não está presente ao nascimento na maior parte dos casos. O que se vê no primeiro dia costuma ser apenas uma marca discreta, uma área levemente mais pálida ou um pontinho vermelho que passa despercebido. A lesão característica geralmente surge entre a segunda e a quarta semana de vida e, a partir daí, costuma crescer.

 

É mais frequente em meninas, em bebês prematuros e em bebês de baixo peso ao nascer. Gestações múltiplas também aumentam a frequência. A causa exata ainda não é completamente conhecida, e nada que a mãe tenha feito ou deixado de fazer durante a gestação provoca o hemangioma, um ponto que se repete em vários mitos sobre o câncer infantil e sobre as lesões da infância em geral.

Hemangioma e mancha de nascença não são a mesma coisa

Essa é a confusão mais comum, e desfazê-la resolve boa parte da ansiedade.

 

As malformações vasculares são um grupo diferente do hemangioma: já estão presentes desde o nascimento e não têm essa fase de crescer primeiro e regredir depois, a lesão nasce e evolui de forma mais linear, sem esse ciclo. A mais conhecida é a mancha vinho do porto: uma marca plana, arroxeada ou rosada, que cresce proporcionalmente ao corpo da criança e acompanha a pessoa pela vida toda.

 

 A mancha salmão, também chamada de nevo simples e popularmente de bicada de cegonha (quando fica na nuca) ou beijo de anjo (quando fica na testa), é do mesmo grupo, mas com uma evolução bem mais branda: é uma marca rosada, plana, muito comum em recém-nascidos, que costuma clarear e desaparecer nos primeiros anos, principalmente nas lesões da face.

 

O hemangioma infantil é o único dos três que tem esse comportamento próprio de crescer primeiro e regredir depois. Essa evolução em duas fases é o que o define.

As três fases: crescer, estacionar e regredir

Entender o ciclo natural do hemangioma evita duas reações opostas e igualmente inadequadas: o desespero durante o crescimento e o descuido em casos que exigiriam tratamento.

 

Fase proliferativa. Vai do primeiro mês até, em média, os cinco a nove meses de vida. É a fase em que a lesão cresce, ganha volume e fica mais vermelha. O crescimento mais rápido concentra-se entre o primeiro e o terceiro mês. É também a fase que mais assusta a família, porque a mancha muda visivelmente de uma semana para outra.

 

Fase de estabilização. Entre o fim do primeiro ano e o segundo ano, aproximadamente, a lesão para de crescer e se mantém estável.

 

Fase de involução. A regressão começa em geral a partir do primeiro ano de vida e segue lentamente por anos. A lesão perde intensidade de cor, muitas vezes começando pelo centro, fica mais acinzentada e vai amolecendo e reduzindo de volume. A referência clínica clássica é que cerca de metade dos hemangiomas involuiu por completo aos cinco anos, a maior parte aos sete e a quase totalidade aos dez anos.

 

Involução completa não significa sempre pele idêntica à original. Parte dos casos deixa alteração residual, como pele mais fina, discreta flacidez, pequenos vasos visíveis ou leve mudança de coloração, principalmente quando a lesão foi volumosa.

Tipos e localizações

A classificação mais usada no dia a dia se refere à profundidade da lesão.

 

O hemangioma superficial é o mais reconhecido, aquele vermelho vivo, elevado, com aspecto que já foi descrito popularmente como morango. Fica na camada mais superficial da pele.

 

O hemangioma profundo atinge camadas mais internas e aparece como uma saliência azulada ou da cor da pele, às vezes percebida apenas pelo relevo. Costuma surgir um pouco mais tarde e regredir um pouco mais devagar.

 

O hemangioma misto combina os dois padrões, com componente superficial vermelho e componente profundo abaixo dele.

 

Quanto à localização, o rosto é a região mais frequente, seguida do couro cabeludo, do pescoço e do tronco. No pescoço, é comum a família confundir o hemangioma profundo com um gânglio aumentado, e vale conhecer o que são os linfonodos para separar os dois achados. Um hemangioma no rosto, mesmo pequeno, tende a gerar mais preocupação estética e social, e essa preocupação é um critério legítimo na discussão sobre tratamento.

Quando o hemangioma exige tratamento

A conduta padrão para a maioria dos hemangiomas é o acompanhamento, com fotografias periódicas e medidas registradas em consulta. Como a lesão regride sozinha, tratar sem necessidade expõe a criança a riscos desnecessários.

 

Existem, porém, situações em que a intervenção é indicada, e nelas o tempo importa, porque o tratamento é mais eficaz durante a fase de crescimento.

 

Risco funcional. Hemangioma na pálpebra ou ao redor do olho pode comprometer o desenvolvimento da visão. Na ponta do nariz, no lábio ou na boca pode interferir na respiração e na alimentação. Na região da laringe pode causar obstrução das vias aéreas, e um sinal de alerta é o ruido ao respirar (estridor) ou a rouquidão persistente em bebê com hemangioma na face, especialmente na região do queixo e do pescoço.

 

Ulceração. É a complicação mais frequente. A superfície da lesão se rompe, forma ferida, dói e pode infeccionar. Acontece mais em áreas de atrito e de dobra, como lábios, região da fralda e pescoço.

 

Tamanho e crescimento acelerado. Lesões grandes ou de crescimento muito rápido durante a fase proliferativa costumam ser tratadas para limitar a extensão final e o risco de sequela.

 

Localização com impacto estético relevante. Lesões visíveis na face, principalmente as volumosas, entram na avaliação de tratamento pelo impacto na criança e na família.

 

Hemangiomas múltiplos. A presença de cinco ou mais hemangiomas cutâneos pode indicar a necessidade de investigar hemangiomas em órgãos internos, principalmente no fígado, com ultrassonografia.

 

Médica examinando com uma lupa dermatológica o antebraço de um bebê que está deitado no colo da mãe, em consultório claro.

Formas de tratamento

O tratamento de primeira linha para hemangiomas que exigem intervenção é medicamentoso, com betabloqueador em uso oral, prescrito e monitorado por médico. Ele age reduzindo o fluxo nos vasos da lesão e acelerando a involução. Exige avaliação prévia e acompanhamento, porque tem efeitos sobre frequência cardíaca, pressão arterial e glicemia.

 

Em lesões superficiais e pequenas, pode ser usado betabloqueador em formulação tópica. Corticoides, laser e cirurgia têm indicações mais restritas. O laser é útil sobretudo em lesões ulceradas e no tratamento de vasos residuais após a involução. A cirurgia costuma ficar reservada para correção de sequelas, geralmente em idade mais avançada, quando a regressão natural já se completou.

 

Nenhuma dessas opções deve ser iniciada por conta própria, e pomadas e receitas caseiras não têm eficácia comprovada e podem provocar ulceração.

O que fazer no dia a dia

Enquanto o acompanhamento segue, alguns cuidados simples fazem diferença.

 

Fotografe a lesão em intervalos regulares, sempre com boa luz e com um objeto ao lado para dar noção de escala. A comparação de fotos é o instrumento mais útil que a família leva à consulta, porque a mudança gradual escapa da percepção de quem vê todos os dias.

 

Mantenha a pele hidratada e proteja a área de atrito, principalmente em regiões de dobra e na região da fralda, onde a ulceração é mais frequente. Use proteção solar adequada à idade nas lesões expostas. Vale ainda aproveitar as fotografias de acompanhamento para observar o reflexo das pupilas, já que o reflexo esbranquiçado em foto com flash é o principal sinal do retinoblastoma. Evite manipular, espremer ou aplicar produtos sem orientação. Se houver ferida, sangramento que não cessa com compressão leve, dor persistente ou sinal de infecção, procure atendimento.

 

Uma orientação que costuma passar despercebida: converse com a escola e com a família estendida. Crianças com hemangioma visível na face podem enfrentar comentários e curiosidade, e a forma como os adultos ao redor lidam com o assunto tem efeito direto sobre a criança.

 

Mãos organizando três fotografias impressas em sequência sobre uma mesa, ao lado de caderno de anotações, caneta e fita métrica.

Por que um centro oncológico fala sobre hemangioma

A dúvida é pertinente. O hemangioma não é câncer, e a maior parte dos casos é acompanhada pelo pediatra ou pelo dermatologista.

 

A resposta tem duas partes. A primeira é que a avaliação de qualquer lesão que cresce em uma criança envolve diferenciar o benigno do maligno, e esse é exatamente o trabalho de um centro especializado. Existem tumores vasculares raros da infância que se parecem com hemangioma no início e têm comportamento diferente, e existem outros tumores pediátricos que podem se manifestar como uma massa em partes moles. Ter em mente os sinais e sintomas dos tumores pediátricos ajuda a saber quando a hipótese benigna precisa ser reavaliada.

 

A segunda parte é que informação de qualidade sobre o que não é câncer também previne. Saber que a mancha vermelha do bebê é benigna e regride sozinha evita tratamentos desnecessários. E saber quais características fogem desse padrão evita o atraso em outro diagnóstico. Setembro Dourado, mês de conscientização sobre o câncer infantil, é uma boa ocasião para tratar dos dois lados dessa moeda, e o diagnóstico precoce segue sendo o fator que mais aumenta as chances de cura.

 

Sinais que fogem do comportamento típico do hemangioma e pedem reavaliação: lesão que continua crescendo depois do primeiro ano de vida, endurecimento progressivo, aderência a planos profundos, crescimento rápido de uma massa em qualquer parte do corpo, aparecimento associado a manchas roxas e petéquias em outras regiões da pele, ou associação com palidez, febre prolongada e perda de peso. Essa última combinação orienta a investigação para leucemia infantil e deve ser levada ao pediatra.

 

O A.C.Camargo Cancer Center mantém um Centro de Referência em Tumores Pediátricos, com equipe multidisciplinar dedicada ao atendimento de crianças e adolescentes. As orientações sobre como funciona o primeiro atendimento estão disponíveis no site.

 

As informações deste texto têm caráter educativo e não substituem a consulta médica — cada caso deve ser avaliado individualmente pelo pediatra, dermatologista ou especialista responsável.

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