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Dona Carmen, a nossa padroeira

 
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Foto do Gabriel Priolli, colunista da Voz do Paciente

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Foto do Gabriel Priolli, colunista da Voz do Paciente

Na semana que vem ele me alcança. Tem sido assim desde sempre, desde que nascemos naquele mesmo ano. Eu faço aniversário e, menos de dois meses depois, ele faz também. Na próxima semana, o A.C.Camargo completa os 71 de uma trajetória de conquistas e glórias, que não são apenas dele e de suas valorosas equipes, mas antes de todos de uma mulher pequenina, uma gigante de determinação que cabe sempre exaltar, ainda mais nas datas celebratórias.

Eu estava no berço, numa casa da Alameda Lacerda Franco, a dois quilômetros de Carmen Prudente, quando ela recebia convidados em 23 de abril de 1953, para a inauguração do grande sonho de sua vida e de seu marido Antônio: o Hospital do Câncer, o primeiro de São Paulo especializado na doença. O hospital da esperança para quem não podia tratar no exterior o mal que lhe consumia o interior aflito.

Tudo em minhas células de bebê funcionava perfeitamente nesse dia, assim como no novíssimo prédio, que continha cinco salas de operações, equipamentos para diagnóstico e serviços de radiografia, endoscopia, anatomia patológica e radioterapia — um avanço no tratamento da doença, estigmatizada até então como incurável. Dentro de 66 anos, minhas células já não funcionariam tão bem e eu cruzaria aquela porta em busca da cura — para minha sorte, no infortúnio de hospedar um tumor.

Com Dona Carmen, entretanto, eu cruzei bem antes e de forma muito mais agradável. Eu teria uns 22 ou 23 anos, quando fui entrevistá-la pela primeira vez para os jornais da TV Cultura, numa de suas campanhas de arrecadação de fundos. Era um trabalho que vinha de décadas e ela agora liderava.

Os doutores Antônio Prudente Meireles de Moraes e Antônio Cândido de Camargo haviam fundado a APCD-Associação Paulista de Combate ao Câncer em 1934, exatamente para levantar recursos e oferecer assistência médica hospitalar contra tumores malignos, disseminar informação sobre o câncer e aperfeiçoar o conhecimento na área de oncologia. O primeiro Antônio, paulista, era neto do ex-presidente da República Prudente de Morais e, em 1938, aos 32 anos, conheceu numa viagem de médicos brasileiros à Alemanha a gaúcha Carmen Annes Dias, filha do chefe da comitiva brasileira e médico pessoal do presidente Getúlio Vargas, então com 27 anos.

"Ele era alto, calado, quase taciturno. Ela era baixa, agitada, quase explosiva", conta meu colega Eduardo Bueno no livro “O Sonho de Carmen”. "Ele era um paulista quatrocentão, vinculado à classe cafeicultora. Ela era gaúcha das Missões, descendente de imigrantes açorianos de classe média. Ele provinha da elite civil, que recém havia sido deposta, manu militari, pelo grupo do qual o pai dela fazia parte. Ele acreditava no poder da ciência e do silêncio; ela, no som das palavras e nos laços sociais. Ambos sabiam ser intensamente persuasivos."

Dois meses depois de voltarem da Europa, os dois estavam casados. Antônio havia conquistado muito mais do que uma mulher interessantíssima, jornalista, fluente em inglês, francês, alemão, italiano e espanhol (depois aprenderia russo e japonês), articulista de A Gazeta e já com livro publicado. Ele conquistou uma parceira de vida e obra, uma auxiliar decisiva na missão de mobilizar a sociedade para a luta contra o câncer.

Em 1945, Carmen Prudente lançou a primeira Campanha Contra o Câncer, que cobriu os muros de São Paulo com 25 mil cartazes pedindo doações. Em 1946, criou a Rede Feminina de Combate ao Câncer, que chegou a agregar mais de 30 mil mulheres em 200 núcleos, em todo o país, organizando exposições, chás beneficentes, desfiles, gincanas e mutirões de arrecadação de fundos para tratamento e pesquisa do câncer. Aquelas senhoras de avental cor de rosa, sabe? Que você vê por aí no hospital? Dona Carmen foi a grande líder delas e nunca mais parou o trabalho da rede, que eu conheci em 1975 ou 1976, quando a entrevistei na primeira de algumas vezes.

O que lembro dela? Primeiro, da simpatia irradiante. Sempre sorrindo, sempre de bom astral, sempre atenciosa e cativante. Era muito agradável conversar com um ser que espalhava luz em todas as direções, que dava vontade de abraçar. Depois, lembro da energia impressionante que ela transmitia. Da persistência, da obstinação incansável. Imagine você passar a vida toda convencendo pessoas a doar recursos ou prestar serviços à causa do câncer. Dia após dia, anos a fio, nas melhores e nas piores circunstâncias, sem deixar a peteca cair. Essa era Carmen Prudente, estimada e sempre muito bem recebida em todas as redações jornalísticas de São Paulo.

O casal Prudente venceu o câncer de muitas maneiras, inclusive no próprio corpo, que ficou imune a ele. O Dr. Antônio se foi em 1965 de um ataque cardíaco. Dona Carmen, em 2001, na decorrência do Mal de Alzheimer. Eu penso na injustiça de uma mente como a dela se desconectando aos poucos do mundo, ao qual ela tanto serviu. Penso nela mergulhando em si mesma e nos deixando órfãos de sua incomensurável bondade. Mas, me consola a riqueza do mundo interior onde ela foi viver e a imponência da obra que legou ao Brasil.

Dona Carmen Prudente
Não tivemos filhos, exceto um, de concreto
Dona Carmen Prudente

Nós sabemos da concretude desse filho, o tanto de conforto e esperança que ele representa para milhares de pacientes. O Hospital do Câncer, hoje A.C.Camargo Cancer Center, foi gestado por essa notável brasileira, que tive a honra de conhecer e que deu ao planeta o privilégio de ter existido. Ela deixou uma obra e uma certeza: abençoado é o que começa na convicção e no amor. 

Sobre o autor

Gabriel Priolli é jornalista radicado em São Paulo. Trabalhou nos principais veículos de imprensa do país, dirigiu e criou canais de televisão e foi professor na PUC, FAAP e FIAM. Hoje, atua como consultor de comunicação.

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