Pesquisa desenvolvida por química brasileira mostra que espectrometria de massas pode evitar cirurgias de tireoide

Publicado em: 16/05/2019 - 20:05:38

Lívia Eberlin, da Universidade do Texas, apresentou estudo que mostra a eficácia da espectrometria na análise dos nódulos de tireoide, evitando cirurgias desnecessárias

Metade dos norte-americanos apresentam nódulos na tireoide antes dos 60 anos e mais de 90% deles são benignos. Com isso, a grande maioria não tem câncer, mas acaba passando pela cirurgia. Estima-se que oito entre dez cirurgias poderiam ser evitadas, não expondo os pacientes, em sua maioria mulheres, à terapia de reposição hormonal por toda a vida. 

Com a proposta de mudar esse panorama, a química brasileira Lívia Eberlin, que lidera o laboratório de espectrometria de massas da Universidade do Texas, mostra que a tecnologia desenvolvida por sua equipe é capaz de ampliar a precisão do diagnóstico do câncer de tireoide. A análise de 178 amostras obtidas por punção de agulha fina mostrou 93% de acurácia, 92% de sensibilidade e 94% de especificidade em casos de tumores de tireoide do tipo papilífero e 83% de acurácia, 81% de sensibilidade e 84% de especificidade em nódulos foliculares. 
“Há muita ambiguidade no diagnóstico pré-operatório de nódulos da tireoide e muitas pacientes vão para cirurgia mesmo sem ter câncer. Esses resultados mostram que, com a análise de massas, nós estamos no caminho certo”, afirmou Lívia Eberlin durante sua palestra na quinta, 16, durante o Next Frontiers to Cure Cancer, evento organizado pelo A.C.Camargo Cancer Center. 

Lívia explica que a tecnologia é um método de análise metabólica que faz, com rapidez e precisão, a diferenciação entre tecido normal e doente. A agilidade e precisão depende da tecnologia adotada. Em seu laboratório, Lívia usa um equipamento que consegue analisar mais de uma centena de moléculas de uma amostra clínica em menos de um segundo. “E essa tecnologia se expande para outros tipos de câncer, pois fazemos com fluidos, tecidos, amostras de sangue, células tumorais circulantes. Enfim, com tudo que tem célula”, explica. 

Outra boa notícia, explica a química, é que muitas das alterações metabólicas que estão sendo observadas por espectrometria de massas fazem sentido quando comparadas com as alterações genéticas. A vantagem para a espectrometria de massas está em sua agilidade e menor custo quando comparado ao teste genético. 

CANETA QUE FAZ O DIAGNÓSTICO EM TEMPO REAL 

Em palestra agendada para esta sexta, dia 17, às 17h10, Lívia Eberlin falará no Next Frontiers sobre o desenvolvimento em seu laboratório da MasSpec Pen, caneta que toca o tecido tumoral e identifica células tumorais em poucos segundos. Conectada a um espectrômetro de massas, a caneta analisa a massa do tecido como se tirasse a impressão digital do tumor. 

É um dispositivo que poderá ser utilizado por cirurgiões e patologistas, que poderão analisar o tecido do paciente no ato da cirurgia. Na ponta da caneta há uma bolha de água que extrai pequenas moléculas do tecido do paciente. A água é arrastada para o interior do espectrômetro. O sistema analisa a composição molecular, procurando por células cancerosas. Em seguida, o cirurgião pode saber se deve ou não retirar o tecido e, caso precise retirar, qual é o tamanho da lesão que precisa ser extraída. “Com essa tecnologia o cirurgião poderá ver a margem cirúrgica antes de remover o tecido, analisar se ela é positiva ou negativa para câncer e confirmar o diagnóstico”, vislumbra Lívia Eberlin. 

A cientista recebeu em 2018 uma bolsa de R$ 2,7 milhões (US$ 675 mil) da MacArthur Foundation para aplicar nos estudos de validação da MasSpec Pen. Está em andamento um estudo de fase 0, aprovado pelo comitê de ética da Universidade do Texas para ser realizado em 100 pacientes. Ao todo já foram realizadas 75 cirurgias em pacientes com câncer de tireóide, mama e pele, todas elas com a análise in vivo comparada à convencional análise por um patologista no centro cirúrgico.  Após a validação, o estudo será ampliado para uma pesquisa multicêntrica, com um número robusto de pacientes. Estima-se que a caneta poderá estar disponível para utilização em um prazo de 3 a 4 anos. 
 

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