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Câncer infantil se cura com ciência, alegria e carinho

 
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Câncer infantil se cura com ciência, alegria e carinho

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Foto do Gabriel Priolli, colunista da Voz do Paciente

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A experiência do paciente de câncer, dele e de sua família, é bem difícil, não há como negar. Quem vive, sabe como a doença convulsiona as emoções, transtorna o cotidiano, impacta a vida. Já é duro passar por ela quando a gente é adulto, amadurecido, com plena capacidade de dimensionar os riscos e entender as perspectivas. Imagine então quando você é criança ou adolescente, ainda está em formação, descobrindo o mundo e o seu lugar nele. Ou quando o problema acontece com um filho seu.

Se você é mãe ou pai, vai agir como todos nessa situação. Vai chegar desesperado, com tantas dúvidas e agonia que nem sabe por onde começar a lidar com a coisa. Vai chegar buscando uma certeza de cura que a medicina não pode dar, ainda que cure muito. De certa forma, você vai trazer dois pacientes de uma vez, o seu filho com câncer e o seu coração sem paz. Nessa hora, tudo que você pode querer é compreensão e acolhimento. Tanto ou mais que a ciência médica de ponta. Então relaxe, porque vai rolar tudo isso e mais um pouco.

"O câncer infantil felizmente é raro, atinge apenas de 2% a 3% da população, e 80% das crianças são curadas", anima-se a Dra. Viviane Sonaglio, Líder do Centro de Referência em Tumores Pediátricos e Head da Pediatria do A.C.Camargo. Mas ela também se preocupa e se mantém vigilante, porque o câncer ainda é a principal causa de óbito entre os brasileiros com menos de 18 anos. Não é pouca gente, nem pouco drama. Perder uma única criança é um futuro frustrado e uma ausência que não se preenche. Qualquer um pode entender isso, ainda mais quem luta diariamente para evitar que aconteça.

A Pediatria Oncológica é vencedora nesse esforço. No A.C.Camargo, ela fica na unidade Tamandaré e tem a quimioterapia na Antônio Prudente. Envolve uma equipe de 6 médicos especializados, 16 enfermeiros e 28 técnicos de enfermagem, com apoio de outras áreas da pediatria. Neste ano, atendeu 465 crianças, na contabilidade precisa de Daniele de Almeida Pereira, supervisora de enfermagem. Elas foram tratadas num clima de sonho, para quem reclama mais humanidade da medicina atual.

"A pediatria é um mundo muito mágico, muito lúdico", diz Daniele "Ela precisa criar vínculos com as crianças e as famílias, isso é fundamental para o tratamento ser eficaz". A Dra. Viviane endossa: "É um ambiente tão alegre, de tanto amor, como não existe em outras áreas". Um dia desses, um oncológico adulto passou por lá e perguntaram a ele a que se devia a visita. A resposta resume tudo: "Eu venho aqui pegar energia".

A experiência mais energizante deve-se, é claro, ao fato óbvio de que os pacientes são crianças e adolescentes, pelos quais sempre há mais ternura e compaixão, um envolvimento de alta voltagem, mesmo dos mais inflexíveis corações. Mas deve-se também — ao menos na visão deste escriba, leigo em medicina mas graduando em "pacientologia" — a duas características próprias do tratamento do câncer infantil.

A primeira é que ele exige mais internação do que o adulto, porque o modo de tratar é diferente. A quimioterapia, por exemplo, é contínua, o processo dura muito mais tempo, não dá para ir e vir do hospital. Os pacientes e suas famílias ficam nele e, assim, têm um contato mais duradouro e mais intenso com o pessoal médico. Já a segunda característica é que oncologia infantil não é especializada como a adulta. Ela é uma especialização em si, o que faz do médico dessa área um "generalista para corpo infantil", capaz de tratar o câncer onde ele estiver, dos pés à cabeça.

É certo que o pediatra oncológico recorre à opinião de colegas especialistas sempre que necessário. Afinal, o A.C.Camargo é um cancer center integrado exatamente para isso, para a troca de experiências e ciência médica. Mas o grau de envolvimento médico-paciente é muito maior ali, sem a menor dúvida. Porque é um elemento-chave do tratamento. "Eu lembro de todas as minhas crianças", diz a Dra. Viviane, comovendo-se. 

Dra. Viviane Sonaglio, líder do Centro de Referência em Tumores Pediátricos
Não é uma doença que tratamos, é de pessoas, de vidas em formação, que nós queremos que se estendam, que conheçam o mundo, que experimentem a existência.
Viviane Sonaglio, líder do Centro de Referência em Tumores Pediátricos e Head da Pediatria

Ouvir isso de uma médica é um abraço no espírito. Uma injeção de ânimo e afeto. A gente vira criança de novo, vendo-a mostrar, numa linda boneca terapêutica, o que o nosso corpo tem e o que vão fazer com ele. A gente se vê feliz e tranquilo na brinquedoteca, e em tudo mais que a Pediatria Oncológica oferece. Ri com os Doutores da Alegria e deixa a mente voar com os contadores de histórias. Corre e grita nas festas de Páscoa ou Natal, na festa junina, no aniversário de algum coleguinha de internação ou de sua mãe, que também é celebrado. Brinca com a cachorrada nas Patas Terapêuticas de todo mês e já anseia por andar nos pôneis, que a Hípica Paulista vai trazer no ano que vem.

A gente se vê na Escola Schwester Heine, especializada em acompanhamento e reforço do estudante oncológico, e percebe que vai voltar à nossa classe tão afiado como podem estar os colegas que ficaram lá. A gente ouve as calmas explicações médicas para a nossa saraivada de dúvidas adolescentes, colhidas no Dr. Google, no celular nunca sai da nossa mão. Sente o apoio daqueles tios e tias de branco, sensíveis às angústias da vaidade, que temos tanto nessa idade.

"A Pediatria Oncológica é uma área onde a gente transborda de alegria, de esperança, de vontade de alcançar a cura", diz a Dra. Viviane, que se vê no lugar certo para isso. "O A.C.Camargo é mais do que paredes. Esse hospital tem alma".

Empenho a minha própria nessa crença. E o meu corpo, nas mãos de quem pensa assim.

Sobre o autor

Gabriel Priolli é jornalista radicado em São Paulo. Trabalhou nos principais veículos de imprensa do país, dirigiu e criou canais de televisão, e foi professor na PUC, FAAP e FIAM. Hoje atua como consultor de comunicação.

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