Câncer ginecológico: novidades e consolidação dos tratamentos

Publicado em: 02/06/2020 - 12:06:11

Por Andréa Paiva Gadêlha Guimarães, oncologista clínica, e Glauco Baiocchi Neto, head do departamento de Ginecologia

Neste ano, o congresso da ASCO trouxe algumas novidades e consolidou a importância de tratamentos já realizados no câncer ginecológico. 


Câncer de ovário

Tivemos o importante estudo SOLO 2, com resultados finais de sobrevida com follow up de 5,5 anos. Apresentado pelo Dr. Andreas Poveda, este estudo fase III foi realizado em pacientes com câncer epitelial de ovário recidivado platino sensível com mutação BRCA, com histórico de quimioterapia baseada em platina. 

Avaliou o benefício do inibidor de PARP (Olaparib) como manutenção até a progressão de doença ou toxicidade limitante, em relação a placebo. Era permitido para pacientes após progressão, o crossover.

O objetivo primário do estudo foi avaliar a sobrevida livre de progressão e, o secundário, foi verificar sobrevida global, qualidade de vida e intervalo de tempo para quimioterapia. 

Houve ganho da sobrevida global de 12,9 meses na população global do estudo, sendo que 38% das pacientes do braço placebo e 10% braço Olaparib fizeram uso de inibidor de PARP após progressão. Houve ainda aumento no intervalo de tempo para quimioterapia subsequente: 27,4 meses x 7,2 meses, HR 0,37, além de cerca de 22% das pacientes com resposta por mais de cinco anos e cerca de 42% da pacientes vivas em cinco anos no braço do Olaparib. A toxicidade foi a esperada para a droga. 

Também tivemos, ainda em câncer de ovário, dois estudos importantes que avaliaram o papel da citorredução secundária em pacientes na primeira recidiva com câncer de ovário platino sensível e com doença passível de ressecabilidade no momento da recidiva.  

Foi um estudo europeu, o Desktop III, e outro chinês SOC-1, cada um com um critério especifico de ressecabilidade – Desktop III (AGO score) e SOC-1 (iMODEL 4,7). 

Apesar de suas diferenças, ambos demonstraram ganhos de sobrevida livre de doença. O Desktop III mostrou resultados finais com ganho em sobrevida global. Porém, o benefício somente é encontrado no caso da citorredução secundária sem doença residual macroscópica, reforçando a importância de critérios de ressecabilidade e esforço máximo para citorredução completa nesta população. 

E, pensando em novas perspectiva de tratamento sistêmico em câncer de ovário, o estudo KEYNOTE-100 fase II avaliou o papel da imunoterapia (Pembrolizumab), droga esta anti PD-L1 em câncer de ovário epitelial recidivado, independentemente do critério de platino sensibilidade. 

Foi realizada uma análise no tumor com pesquisa PD-L1 por CPS (combined positive score). As pacientes foram divididas em 2 coortes, sendo: a) com 285 pacientes já submetidas a uma a três linhas de quimioterapia prévia, com intervalos de platina de três a 12 meses; b) 91 pacientes submetidas quatro a seis linhas de quimioterapia prévia com intervalo livre de platina > ou = a três meses. Endpoint primário: resposta por coorte / expressão PD-L1; endpoint secundário: duração de resposta, sobrevida livre de progressão, sobrevida global e segurança. 

Num período de seguimento de 38 meses, foi observada na coorte A uma resposta clínica de 22%, sendo resposta objetiva de 8,1% e duração de resposta de 8,3 meses. Na coorte B, resposta clínica de 22%, resposta objetiva de 9,9 % e duração de resposta 23,6 meses. 

Na população global do houve 31,6% de regressão das lesões, e mediana de resposta de 10,2 meses; em 67% das respondedoras, duração da resposta por mais de 6 meses. Não houve ganho de sobrevida global ou livre de doença. Observada a taxa de resposta em pacientes com CPS > 10, sendo na coorte A de 11,6% e na coorte B de 18,2%, com tendência aumento de sobrevida global não significante, sendo nas pacientes com CPS > 10 uma sobrevida global de 21,9 x 24 meses. Toxicidade grau 3 ou 4 ocorreram em 20% das pacientes e, dentre as mais frequentes, foram as doenças autoimunes: como hipo e hipertireoidismo, colite e cutânea.  


Câncer de endométrio

Tivemos estudos com perspectivas de novas drogas. Dentre eles, o estudo fase II com Adavosertib (AZD1775), um inibidor de WEE1, droga que atua no ciclo celular que foi avaliado em carcinoma seroso de endométrio recidivado após falha da quimioterapia baseada em platina, e sem uso prévio de imunoterapia. 

Foi um estudo com 16 pacientes, que demonstrou uma taxa de resposta objetiva de 29,4%, benefício clinico de 50% e sobrevida livre de progressão de 6,14 meses. Sendo observada, em 59,6%, sobrevida livre de progressão de seis meses e duração mediana de resposta de 9,03 meses. 

Um estudo bastante interessante, apesar de pequeno (15 pacientes), foi o TROPHIMMUN. Fase II, com o uso da imunoterapia (Avelumab), um anticorpo anti PD-L1 como monoterapia em paciente com neoplasia trofoblástica gestacional resistente – uma patologia com poucas novidades nos últimos anos. 

Foram 02 coortes, sendo a coorte A resistente à monoterapia com metotrexate e actinomicina; e a coorte B resistente à poliquimiotrapia (EMACO). 

O objetivo primário do estudo foi a normalização do marcador tumoral BHCG sérico, permitindo suspensão de tratamento. Os objetivos secundários foram segurança, sobrevida global e livre de doença. 

Resultados: foi observada uma normalização de 50% de BHCG sem recidiva, após uma mediana de nove ciclos em 56% das pacientes, com perfil de toxicidade excelente. Após um seguimento de 27 meses, as pacientes foram consideradas curadas. 

Esta estratégia poupou cerca de 33% das pacientes de poliquimioterapia de resgate. Esse foi o primeiro estudo com imunoterapia em pacientes com esta patologia. 


Colo do útero 

Avaliação de segurança a longo prazo dos estudos SENTICOL I e SENTICOL II. Foram avaliados os casos com linfonodos negativos, comparando retrospectivamente o grupo das pacientes que foram submetidas somente ao protocolo do linfonodo sentinela com o grupo submetido a linfonodo sentinela com adição da linfadenectomia sistemática. 

Os resultados sugerem que a pesquisa do linfonodo sentinela é segura sem a adição da linfadenectomia em relação à risco de recidiva.

 

Avaliação de conteúdo

Você gostaria de avaliar esse conteúdo?
Esse conteúdo foi útil?
Gostaria de comentar algo sobre esse conteúdo?
Ao continuar você confirma ter ciência de nossa Política de Privacidade e dos respectivos Avisos de Privacidade e Proteção de Dados presentes em nosso Portal de Privacidade.
CAPTCHA
Esta pergunta é para testar se você é humano e para evitar envios de spam

Veja também

Leucemia mieloide aguda: novo método calcula com precisão a sobrevida do paciente
Pioneiro no campo da onco-hematologia, ele foi desenvolvido em estudo multicêntrico internacional, que teve a liderança de médico do A.C.Camargo Cancer Center Quando um paciente é diagnosticado com leucemia mieloide aguda, os médicos usam uma variedade de métricas para determinar a gravidade da doença. As...
Pesquisa aponta aumento da incidência de câncer de orofaringe associado a infecção por vírus HPV
Neste Julho Verde, mês de conscientização sobre o combate aos tumores de cabeça e pescoço, conheça este estudo feito na cidade de São Paulo, que analisou mais de 15 mil casos de câncer de boca e orofaringe O papilomavírus humano (HPV) é um vírus que...
Síndrome de Li-Fraumeni: estudo que envolveu o A.C.Camargo pode mudar o aconselhamento genético da doença de forma marcante
Pesquisa internacional analisou dois tipos de mutações que estão ligadas à predisposição ao câncer A Síndrome de Li-Fraumeni (SLF) é uma doença hereditária de predisposição ao câncer, relacionada a mutações no gene TP53. Uma das mutações neste gene, denominada R337H, é encontrada apenas no Brasil...
Dia Mundial do Câncer de Rim: atividade física ajuda a reduzir o risco da doença
A adoção de hábitos saudáveis durante o dia diminui a incidência de tumores renais e ainda atua na melhoria de problemas cardiovasculares ou diabetes Câncer de rim e prevenção. Segundo dados mais recentes do Instituto Nacional de Câncer (Inca), a incidência de câncer renal no...
Câncer de cabeça e pescoço: artigo científico traz recomendações para cirurgias oncológicas
Estudo internacional teve a contribuição do Dr. Luiz Paulo Kowalski, líder do Centro de Referência em Tumores de Cabeça e Pescoço Câncer de cabeça e pescoço e Covid-19. Em artigo divulgado pela revista científica The Lancet Oncology, especialistas representando mais de 30 sociedades médicas do...