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Os planos e o drama da cobertura

 
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Os planos e o drama da cobertura

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Foto do Gabriel Priolli, colunista da Voz do Paciente

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Imagine você estar na Emergência do A.C.Camargo, acomodado provisoriamente numa baia, esperando a transferência para um quarto do hospital. Você é um paciente em seguimento de câncer e deu entrada com um quadro de diarreia intensa. Como é o auge da epidemia de dengue, o médico plantonista suspeita que você está com a doença e, cauteloso, acha melhor interná-lo. Então, ali na baia, você todo debilitado e angustiado, toca o seu celular.

"Seu Fulano? Sou a Sicrana do plano de saúde X. Queria informar que a sua internação não foi autorizada. O seu plano só cobre internações no A.C.Camargo para procedimentos oncológicos, não outras doenças. Vou estar mandando uma ambulância para removê-lo até um outro hospital, da nossa rede de atendimento. Estamos procurando algum que tenha vaga, logo voltaremos a ligar.”

Que tal? Você com uma possível dengue, se esvaindo em diarreia, passear de ambulância pela vasta megalópole paulistana, até um hospital não sei onde, para ser internado sabe-se lá como, e ser tratado pelo critério de economia do seu plano de saúde, não da qualidade de atendimento que você contratou? Pois é, essas coisas acontecem. E outras muito, muito piores. Como levar a família de um segurado a entrar na justiça para obter uma sentença liminar, obrigando a cobertura do atendimento dele, que teve um AVC gravíssimo e corre risco de vida. Ou coisas ainda mais graves.

Planos de saúde estão se tornando uma doença adicional para os doentes. A pessoa procura um hospital quando tem um problema sério ou está passando mal, o que já oferece preocupações suficientes para ela e a sua família. Mas agora eles têm de pensar na saúde e no plano de saúde. Pensar no tratamento que o hospital propõe e no tratamento que ela terá da empresa que lhe vendeu um seguro de saúde. O hospital querendo agir logo e o plano retardando ao máximo, se esforçando para achar pelo em ovo e negar a cobertura.  

Por exemplo, o argumento usado pela moça lá em cima, de que a internação seria só para tratar câncer. O hospital faz cirurgias eletivas de outras doenças, não oncológicas, para os seus pacientes. Eu mesmo já fiz duas delas e o meu plano de saúde à época cobriu, sem problemas. A restrição apresentada pela funcionária não consta em contrato. É cascata, enrolação do plano para levar o segurado à sua própria rede de serviços — em geral, de qualidade mais baixa que a dos hospitais de ponta, como o nosso — e economizar.

Todo mundo está se queixando disso. Pacientes, profissionais da saúde, gestores hospitalares. Está rolando um arrocho geral dos planos. Médicos são descredenciados, serviços deixam de ser cobertos nas clínicas e hospitais, os planos estão cortando tudo. Menos o valor do boleto, evidentemente, que é sempre astronômico e avança rumo aos confins do Universo, com aumentos anuais que podem superar os 20%. O meu subiu exatos 21,92%.

Eu me pergunto o que justifica reajustes dessa ordem, quando fechamos 2023 com uma inflação de 4,62% e a meta para este ano é de 3,5%. O argumento dos planos é que tiveram aumento das despesas, com a retomada de atendimentos interrompidos durante a pandemia da Covid-19 — que acabou há dois anos e meio. Eles também justificam os aumentos com a inflação de custos dos suprimentos médicos e a incorporação de novas tecnologias à rede de saúde, como se nós não tivéssemos problemas equivalentes. O custo de vida subiu geral e hoje procuramos aprender sobre Inteligência Artificial, nova exigência do mercado de trabalho. Mas as nossas receitas não crescem 22% ao ano.

Em qualquer circunstância, as eventuais dificuldades financeiras dos planos não justificam inventar estratagemas para complicar a vida dos segurados, dos médicos e das instituições de saúde. Isso está virando um tormento e é inaceitável para nós, pacientes, que pagamos caro e em dia por serviços que são negados com frequência cada vez maior.

Enfim, se a coisa não está boa para os planos, está pior para nós. O quadro tem de mudar e logo. Pressionar por mudanças é o nosso papel e das organizações que cuidam de nós. Que os prestadores de serviços tenham seu justo lucro. Mas a saúde das pessoas vem em primeiro lugar.

Sobre o autor

Gabriel Priolli é jornalista radicado em São Paulo. Trabalhou nos principais veículos de imprensa do país, dirigiu e criou canais de televisão, e foi professor na PUC, FAAP e FIAM. Hoje atua como consultor de comunicação.

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