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Pesquisa Clínica, à procura da cura

Linha Fina

Na oncologia, o foco da pesquisa clínica é avaliar a segurança e a eficácia de novos procedimentos e medicamentos contra o câncer
 

Pesquisa clínica, estudo clínico ou ensaio clínico é a forma de estudar novos exames e tratamentos e avaliar sua segurança, seus efeitos e resultados na saúde humana. As pessoas se voluntariam para participar de ensaios clínicos cuja finalidade é testar intervenções médicas, incluindo drogas, células e outros produtos biológicos, além de procedimentos cirúrgicos ou radiológicos, dispositivos, tratamentos comportamentais e cuidados preventivos.

O objetivo é descobrir ou verificar os efeitos positivos e negativos de procedimentos farmacodinâmicos, farmacológicos, clínicos e outros, bem como reações adversas do item em investigação para garantir a máxima segurança e eficácia. Em outras palavras, um estudo desse garante que os tratamentos disponíveis no mercado hoje já passaram por estudos clínicos e já foram aprovados para sua comercialização. “Enquanto não houver a cura de 100% dos cânceres na totalidade de pacientes, há espaço para a pesquisa clínica seguir com a busca de novas terapias que melhorem cada vez mais o desfecho para os pacientes”, afirma Dr. Helano Carioca Freitas, vice-líder do Centro de Referência de Tumores de Pulmão e Tórax. 

Como esse processo ocorre? Durante o desenvolvimento de uma medicação, há etapas que envolvem seres humanos. Do ponto de vista didático, isso é dividido em quatro fases. “O público leigo tende a achar que o que funciona em laboratório, funciona no organismo humano. Mas não é assim. A enorme maioria do que é testado em laboratório e em animais, não funciona ou não é segura para o ser humano”, diz o especialista.

A fase I (em inglês, first in humans) representa a primeira vez que o produto é testado em humanos. Nessa primeira etapa, os objetivos são definir a segurança e a dose de uso da inovação nas pessoas. Na fase II, a segurança segue sob avaliação, mas o cientista passa a verificar também a eficácia do eventual trata- mento. Essa etapa pode ser comparativa ou não: na Oncologia, por exemplo, são observados o percentual de pacientes que apresentaram redução tumoral, o tempo de controle da doença, o tempo de vida das pessoas.

Por melhor que sejam os resultados, para se ter certeza de que o novo apresenta vantagens frente ao melhor tratamento disponível no mercado, há a necessidade de compará-los. Normalmente, essa comparação é feita na fase III. “Esse é o ensaio clínico verdadeiro, que é randomizado: é decidido em sorteio a parte dos integrantes que receberá o tratamento padrão e a que receberá a inovação em teste”, explica Dr. Freitas.

A fase IV é quando a droga, já aprovada pelas instâncias regulatórias de cada país e já disponível no mercado, é usada nas situações mais parecidas com a vida real. Se se mostrar mais eficaz, passa a ocupar o lugar de novo tratamento padrão. “A partir daí, os novos estudos terão de comparar as futuras inovações com esse novo padrão”, completa o pesquisador.

O paciente precisa de certo altruísmo para o desafio

Na hora de triar os pacientes que vão integrar um ensaio clínico, há critérios de elegibilidade. O primeiro passo é o médico responsável pelo tratamento comunicar a íntegra do estudo, esmiuçar a droga controle ou padrão e tudo que seja conhecido sobre a inovação a ser testada, além das regras da participação. Quando o paciente se sente suficientemente seguro e interessado em participar, ele assina o termo de consentimento.

Durante tais esclarecimentos, segundo Dr. Helano de Freitas, não é raro que os interessados queiram escolher o trata- mento a ser recebido. Por isso a escolha é randomizada (por sorteio). É assim que são garantidas chances iguais de que qualquer um pode receber um tratamento ou outro. Todos os participantes têm de seguir as regras do estudo e podem desistir dele a qualquer momento. É importante refletir e saber que a pesquisa clínica não é feita para salvar pacientes. Ela existe para gerar conhecimento que pode ou não ser útil aos participantes, mas que certamente será aos futuros pacientes. “É por isso que exige uma parcela de altruísmo de cada voluntário”, afirma o pesquisador.

No DNA, assistência, ensino e pesquisa

O A.C.Camargo Cancer Center integra assistência, ensino e pesquisa, básica e translacional, ao tratamento do câncer desde sua fundação. Tripé, aliás, que foi fortalecido com a migração para o modelo de cancer center. Com o recente aumento da pesquisa clínica no Brasil, patrocinada principalmente pela indústria farmacêutica, o A.C.Camargo Cancer Center recupera destaque na área de pesquisa.

Hoje há zero inovação genuinamente brasileira no tratamento oncológico. Essa é uma das razões pelas quais a unidade de pesquisa clínica do A.C.Camargo luta por captar os estudos mais promissores existentes no exterior para testá-los na instituição. “Assim, a gente propicia a nossos pacientes acesso ao que há de mais inovador no mundo”, afirma o vice-líder do Centro de Referência de Tumores de Pulmão e Tórax.

De acordo com Dr. João Paulo Lima, coordenador da Pesquisa Clínica, a instituição realiza estudos nas fases I, II e III. Foram 150 estudos feitos nos últimos 20 anos e mil pacientes tratados. Atualmente, há 21 estudos clínicos abertos para novos pacientes; outros 20 com pacientes em tratamento e 100 reunindo os pacientes tratados em todos os Centros de Referência da instituição. Cada centro de pesquisa é convidado a participar desses ensaios. Todos têm um investigador responsável, seus resultados divulgados em publicações científicas e apresentados em congressos.

Sob coordenação do Dr. Marcelo Petrocchi Corassa, oncologista clínico do Centro de Referência de Pulmão e Tórax, a última reunião anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco, na sigla em inglês), teve, como um dos destaques, o estudo: Tumor agnostic efficacy and safety of erdafitinib in patients (pts) with advanced solid tumors with prespecified fibroblast growth factor receptor alterations (FGFRalt) in RAGNAR: Interim analysis (IA) results.

Trata-se de um ensaio de cenário diagnóstico, ou seja, não importa o tumor investigado, mas sim a alteração molecular presente no tumor. A equipe procurava uma alteração molecular específica, a FGFR, e fazia o tratamento a partir dela. Os resultados demonstraram benefícios aos pacientes que já tinham sido tratados extensamente com os recursos disponíveis até aqui. “A nossa expectativa é que os achados tragam grandes possibilidades de adotarmos mudanças nas práticas clínicas para tumores com essa alteração molecuar”, explica Dr. Corassa.

A realização do ensaio teve a participação de três pacientes e a triagem feita pelo A.C.Camargo Cancer Center, de 135. O estudo englobou uma série grande de diagnósticos, embora não fosse a totalidade absoluta, e os pacientes escolhidos precisavam ter exaurido os tratamentos disponíveis. Foram seguidos critérios percentuais específicos de alteração do gene FGFR para cada tipo de tumor.

Feitos os testes moleculares e aprovados pelos critérios, os pacientes receberam a terapia alvo Erdafitinib, hoje, liberada no Brasil somente para casos de câncer de bexiga. Já há registros de pacientes lançando mão desse tratamento há quase dois anos e evoluindo bem.

A taxa de resposta aproximada foi de 30%. Isto significa que 30% dos pacientes teve uma redução significativa no tamanho de seus tumores. O tempo dos pacientes em tratamento - chamado sobrevida livre de progressão foi de 5,2 meses, e o tempo de sobrevida desde o início do estudo foi de 10,9 meses. “Parece pouco, mas estamos falando de casos em que já se tinham esgotado todas as possibilidades existentes de tratamento padrão”, esclarece Dr. Corassa. Além disso, pacientes bem-sucedidos com o tratamento foram os que fizeram uso prolongado da droga, cerca de oito a dez meses.

A pesquisa clínica avalia novos procedimentos, diagnósticos, medicamentos ou cirurgias promissoras por meio de estudos clínicos, que seguem normas muito rígidas, a fim de proteger os participantes das pesquisas. O A.C.Camargo Cancer Center mantém acordos com hospitais e empresas inovadoras (nacionais e internacionais) para desenvolver tais estudos na busca das melhores maneiras de prevenir, diagnosticar e tratar o câncer.

Ensaio de terapia celular na fase 1

No Centro de Referência de Neoplasias Hematológicas, Dr. Jayr Schmidt Filho conduz um estudo internacional, o MINK 1305, para o qual foram escolhidos somente sete centros de pesquisa no mundo. O Brasil trata o sétimo paciente do mundo com a medicação, em um ensaio de terapia celular feito com células vindas dos Estados Unidos. Esse é o primeiro e mais arrojado estudo no Brasil, o qual pretende achar o tratamento para mieloma com células. Segundo Dr. João Paulo Lima, coordenador da Pesquisa Clínica da Instituição, a equipe do A.C.Camargo vai ajudar a definir se o uso das células é seguro, se não atrapalha o organismo e o quanto delas deve ser usado. Esse tipo de ensaio acontece normalmente no Japão, Suíça, Inglaterra, Estados Unidos. “A escolha do A.C.Camargo como um dos poucos centros do mundo a conduzir esse estudo atesta a qualidade e a excelência da instituição”, afirma Dr. João Paulo Lima.

O MINK 1305, patrocinado pela Mink Therapeutics, é um ensaio aberto de fase I de segurança, tolerabilidade e atividade clínica preliminar de células alogênicas invariantes natural killer (intk) não transduzidas (agent-797) em pacientes com mieloma múltiplo recidivante e refratário, já tratados previamente. Esse ensaio trabalha com células NK, e não com células CAR − como o de CAR-T, apresentado no box desta edição − e o primeiro paciente recebeu a infusão em meados de setembro.

O objetivo do MINK 1305 é determinar a dose máxima tolerada em humanos e, nessa etapa, o foco é descobrir se o medicamento é seguro e aceitável para tratar mieloma múltiplo recidivado e refratário. A partir do uso de diferentes doses, em diferentes grupos de pacientes, os cientistas observarão os eventuais efeitos colaterais apresentados. Cada paciente será designado a um pequeno grupo (também denominado coorte) e receberá uma dose específica do produto experimental.

A responsabilidade de lidar com o incerto

Por fim e não menos importante, o vice-líder do Centro de Referência de Tumores de Pulmão e Tórax, Dr. Helano Carioca Freitas, fala sobre a documentação detalhada envolvida no processo para garantir a segurança e o melhor cuidado aos participantes de um estudo clínico. “A pesquisa clínica está mais para sacal do que para divertida, pois precisa de muita burocracia.” Toda a documentação e regulamentação necessária para lidar com o incerto de uma pesquisa clínica demanda muito trabalho. “Até a consulta de uma pesquisa clínica é totalmente diferente de uma consulta ordinária”, completa.

Segundo o pesquisador, numa consulta de pesquisa clínica, é preciso identificar o sintoma de acordo com a classificação internacional específica. Deve-se graduar o sintoma, ter data de início e término, e avaliar se está relacionado com o trata- mento recebido − sim, não, possivelmente ou provavelmente −, além de estabelecer o vínculo com os medicamentos usados até então pelo voluntário, e por quanto tempo estão em uso.

Na prática clínica, só é preciso saber quais são os medicamentos e eventuais causas para agir a fim de reduzir ou eliminar o sintoma. “Em pesquisa é obrigatório documentar minuciosamente os quês e quandos da consulta, pois tudo é auditável”, alerta. A qualquer momento a instituição pode receber inspeção da ANVISA, do FDA ou de auditorias independentes contratadas pelo patrocinador do estudo.

Dados das 16 maiores indústrias farmacêuticas globais dão conta de que os estudos da maioria das drogas morrem na fase II. Somente 18% a 28% das drogas passam para a fase III. Segundo o pesquisador, depois do eco deixado pela COVID-19, as pessoas passaram a ter mais dificuldade para entender isso. “Acham que a partir do que está na teoria já há resultado nas pessoas”, conclui.

Ensaio clínico com CAR-T fez a primeira infusão em paciente

Nova modalidade, que modifica geneticamente células que atacam o tumor, é a base do estudo em fase 3 que está em andamento no Cancer Center

O A.C.Camargo Cancer Center realizou, no último 28 de novembro, a infusão do primeiro produto de terapia celular da história da instituição e a segunda em todo o Brasil. Trata-se do Ensaio Clínico com células CAR-T (células T geneticamente modificadas e reprogramadas em laboratório para destruir os tumores) da Janssen Cilag Farmacêutica. Apenas quatro instituições de saúde foram credenciadas para oferecer o tratamento de alta complexidade no Brasil, e o A.C.Camargo é o único Cancer Center que pode administrar a terapia no país.

A nova modalidade de imunoterapia, que modifica geneticamente os linfócitos (tipo de célula do sistema imunológico presente no sangue) para atuarem contra o tumor, é a base do estudo em fase 3, em andamento no Cancer Center.

Essa nova terapia poderá beneficiar pacientes que sofrem com mieloma múltiplo, uma alteração nas células do sistema imune que provoca disfunção na resposta imunológica, produzindo anticorpos defeituosos, sem atividade e que seguem progredindo, mesmo após o tratamento convencional (quimioterapia ou transplante de medula óssea). Essa é a primeira terapia à base de células CAR-T para tratar esse tipo de câncer. Ela foi aprovada pela ANVISA em março de 2022.

O mieloma múltiplo é mais recorrente em pessoas com mais de 60 anos. Seus sintomas são similares aos das doenças crônicas como, cansaço excessivo, marcas roxas na pelem, confusão, diminuição da força e da sensibilidade dos dedos, dor nos ossos, aumento dos níveis de cálcio no sangue, fraturas frequentes e espontâneas e o aumento no risco de desenvolver anemia, decorrente da diminuição na quantidade plaquetas e glóbulos brancos e vermelhos. No entanto, dificilmente estes sintomas se manifestam ainda na fase inicial da doença.

O diagnóstico pode ser realizado por um hematologista ou oncologista, por meio de testes clínicos, sanguíneos, de urina e biópsia da medula. Por ser considerado relativamente raro, o Instituto nacional do Câncer (INCA), não possui dados precisos. Porém, autoridades americanas estimam que, cerca de 95% dos casos são diagnosticados em fases avançadas da doença nos EUA. Nesse quadro avançado, a taxa de sobrevida de cinco anos é de 51%, podendo chegar a 74% quando diagnosticado em estágio inicial.

O funcionamento da imunoterapia feita no A.C.Camargo

A primeira etapa do processo é colher células do sistema imunológico do paciente a partir da centrifugação do sangue. Este procedimento é conhecido como leucaférese, e é similar a uma hemodiálise.

Em seguida, já em um laboratório, um especialista isola o linfócito T (tipo de leucócito ou célula de defesa do sistema imunológico). Esse linfócito é capaz de reconhecer antígenos (substâncias estranhas ao organismo como vírus, bactérias, tumores ou substâncias tóxicas) existentes no organismo.

O próximo passo é enviar o material coletado a um laboratório que fará a manufatura dessas células, ou seja, fará a modificação genética para programá-las para destruir o tumor. Isso é feito com auxílio de um vetor viral (vírus que tem o material genético alterado em laboratório para reconhecer e combater o tumor). Esse vetor entra no linfócito T, modifica o DNA dele e faz com que aquela célula expresse um receptor que reconheça o antígeno da doença, nesse caso o mieloma múltiplo, e a ataque.

Dentro de sete dias após a infusão das células CAR-T, pode haver uma reação inflamatória, sinal de que os linfócitos modificados estão se reproduzindo dentro do organismo e induzindo a liberação de substâncias para eliminar o tumor. Nesse momento, além de febre, o paciente pode apresentar variações em sua pressão arterial e eventual necessidade de internação em Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

Sobre o estudo CARTITUDE-5

Registrado no Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) do A.C.Camargo sob o nº:3212/22 e na comissão nacional de Ética em Pesquisa (CONEP) sob o nº: 48248621.6.2002.5432 o “CARTITUDE-5” é um  estudo de fase 3, randomizado comparando Bortezomibe, Lenalidomida e Dexametasona (VRd) seguidos por Ciltacabtagene Autoleucel, uma Terapia de Células T com receptor de antígeno quimérico (CAR-T) direcionado ao BCMA versus Bortezomibe, Lenalidomida e Dexametasona (VRd) seguidos por terapia com Lenalidomida e Dexametasona (Rd) em participantes da pesquisa com mieloma múltiplo recém-diagnosticado e para os quais o transplante de células-tronco hematopoéticas não está planejado como terapia Inicial. 

Número do Estudo: 68284528MMY3004 
Pesquisador Responsável: Dr. Jayr Schmidt Filho 
Patrocinador: Janssen Cilag Farmacêutica Ltda.

 

Nutrição para pacientes com câncer: os desafios

Linha Fina

Conversa, medicamentos adequados e alimentação correta estão entre eles

A nutrição para pacientes com câncer é um pilar muito importante do tratamento, assunto abordado no do Next Frontiers to Cure Cancer, congresso internacional organizado pelo A.C.Camargo de 22 a 25 de junho.

No Simpósio de Nutrição e Nutrologia do evento, foi lembrado que é essencial que as equipes de nutrição tenham empatia e se dediquem ao ter uma conversa com os pacientes, pois assim é possível entendê-los por completo, já que eles chegam com uma grande carga psicológica e física.

“Muitas vezes, o paciente não consegue compreender o que estamos explicando. Ele até diz que entendeu, mas tem dificuldade por todo o contexto”, alerta Lidiane Pereira Magalhães, tutora do Programa de Residência Multi em Oncologia (Nutrição) e nutricionista do ambulatório de Nutrição em Oncologia do Departamento de Oncologia Clínica e Experimental da UNIFESP/HSP.


Uso inadequado de medicamentos e alimentação 

Esta é uma questão importante. “Por vezes, eles têm um tumor no estômago que está sendo tratado como gastrite e já chegam com o problema avançado. Ou eles acham que já tomam muito remédio e deixam de tomar, por exemplo, algo para a náusea. Ou o estômago está doendo e eles tomam Omeprazol por conta própria”, explica Lidiane.

A alimentação também é vital. “Às vezes, eles vêm de outros estados com um hábito alimentar diferente e ficam na casa de parentes, o que faz que ele coma menos. Economizar também é um ponto importante, pois eles podem apelar, por exemplo, por se alimentar com macarrão instantâneo. Se eles não se tratarem direito, vão desidratar”, acrescenta a especialista, que diz que faz falta um cuidador para monitorar essas questões. 


Nutrição para pacientes com câncer: outros desafios

De acordo com Lidiane, muitas coisas envolvem o paciente. Falta orientação e atendimento correto – muitos profissionais não têm paciência de explicar o quadro.

“Pode haver medo e preconceito, eles ‘não querem encontrar doença’. Às vezes, na região em que eles moram não há acesso ao serviço que eles necessitam, então eles precisam ir a outra cidade ou não conseguem a medicação para o problema que eles têm, e tudo isso agrava mais a saúde”, alerta a nutricionista Lidiane Pereira Magalhães.

Nutrição para pacientes com câncer: lidiane, branca, 40 anos

 

Confira os destaques do terceiro dia do Next Frontiers

Nosso 3º dia do Next Frontiers to Cure Cancer foi um sucesso! Confira no vídeo um resumo com os principais acontecimentos de hoje.

No 4º e último dia ainda teremos muitas atividades em diversas salas, a divulgação dos selecionados dos Resumos Científicos e o lançamento do Prêmio Inovações pela Vida 2022. Acompanhe com a gente! ?

??Confira a programação e não fique de fora: https://www.nextfrontiers.com.br/nfcc2022

 

Atualizações no diagnóstico dos tumores neuroendócrinos

No segundo dia do Next Frontiers to Cure Cancer, o Dr. Rodrigo Gomes Taboada, oncologista clínico do A.C.Camargo Cancer Center, abordou as atualizações no diagnóstico dos tumores neuroendócrinos em sua aula. 

O especialista explicou que os tumores neuroendócrinos são raros. “Embora rara, essa incidência está aumentando nos últimos 30 anos. Provavelmente devido ao refinamento dos métodos de imagem, maior uso desses métodos para rastreamento de outras condições e maior conhecimento da comunidade clínica e patológica”. 

O aumento de incidência ocorre a todos os sítios primários, mas principalmente nos pulmões, intestino delgado, pâncreas e estômago. Considerando todas as neoplasias malignas do trato gastrointestinal, os tumores neuroendócrinos representam cerca de 1,5%. 

Tumores neuroendócrinos: heterogeneidade e classificação 

Dr. Rodrigo explica que os tumores neuroendócrinos formam um grupo de neoplasias tão heterogêneo que sua imprevisibilidade torna o manejo desafiador. O diagnóstico é fundamentalmente patológico e depende da morfologia e de marcadores de imuno-histoquímica de diferenciação neuroendócrina. 

“Os marcadores imuno-histoquímicos são fundamentais para o diagnóstico, mas também podem ser úteis para a diferenciação de neoplasias de alto grau, que são divididas em tumores neuroendócrinos de grau 3 e carcinomas neuroendócrinos”, comenta Dr. Rodrigo. Ele também reforça a importância de saber que pode haver a mesma multiplicidade de marcadores positivos em distintos sítios. 

Em um grupo de neoplasias tão heterogêneo é natural que existam diversas classificações, a maioria delas com aplicações prognósticas ou terapêuticas. Podem ser diferenciadas pela localização do sítio primário e a presença de síndromes funcionantes ou associadas à predisposição hereditária ao câncer. 

Os médicos que tratam os pacientes com tumores neuroendócrinos precisam ficar sempre atentos e suspeitar de heterogeneidade tumoral, tanto no diagnóstico quanto durante o curso da doença. Pode ser útil combinar métodos de imagens funcionais se a doença está demonstrando um curso mais agressivo. Até mesmo repetir uma biópsia pode ser necessário em alguns casos. 

Dr. Rodrigo comenta que é preciso individualizar o tratamento, avaliar a carga de sintomas, a carga tumoral, a ressecabilidade, se é predominantemente metastática para o fígado, a taxa de progressão e a performance do paciente, que são características extremamente subjetivas. Tudo isso é essencial, assim como a análise desse paciente e definição de conduta em uma reunião multidisciplinar. 

“A área multidisciplinar reduz o atraso do diagnóstico, dos tratamentos, facilita a continuidade do cuidado, personaliza o tratamento do paciente e é uma possibilidade de educação e pesquisa para a Instituição”, finaliza. 

Cirurgia Robótica em Oncologia - Assistência, Ensino e Pesquisa

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Encontro reuniu grandes nomes para debater ampliação, ensino, certificações e o custo-efetividade do tema 

A cirurgia robótica foi destaque no segundo dia de apresentações no Next Frontiers to Cure Cancer. O Dr. Stênio de Cassio Zequi, líder do Centro de Referência de Tumores Urológicos, conduziu os trabalhos da sala. Foram discutidos pontos como a importância da formação de cirurgiões que operam por robô, as certificações, a efetividade dessa prática e as vantagens assistenciais, além de sua custo-efetividade. 

O procedimento, que é minimamente invasivo, traz diversos benefícios para pacientes quando comparado à cirurgia convencional. 

O A.C.Camargo Cancer Center é um dos principais centros da América Latina especializados em cirurgia robótica para o câncer. Além de especialista em oncologia, a experiência em robótica torna a Instituição uma referência neste tipo de procedimento para tratamento de tumores.  

Porém, para aproveitar o máximo potencial da cirurgia robótica, é preciso uma equipe multidisciplinar de especialistas em oncologia que atuam de forma integrada. Por isso, esse tipo de procedimento desse levar em consideração também o contexto de tratamento e como os demais profissionais, como nutricionistas e fisioterapeutas, por exemplo, estão capacitados. 

O trabalho destes profissionais na preparação do paciente para o procedimento também é importante. O preparo físico, nutricional e psicológico antes da cirurgia são essenciais para que o paciente tenha uma recuperação mais segura e eficiente. 

Em uma das salas de transmissão, no segundo dia de sessões do evento, o Dr. Stênio de Cassio Zequi explanou sobre a especialização da Instituição. São 9 anos e mais de 3.600 cirurgias.  

Segundo o Dr. Stênio, o programa de cirurgia robótica é um sucesso e muito bem estabelecido devido estratégias mercadológicas, programas de ensino e alta especialização de todos envolvidos no processo. “No Brasil, temos 90 robôs. Somente em São Paulo 32 e, mesmo assim, o A.C.Camargo foi um dos hospitais que mais operou por robótica durante a pandemia”, comenta o especialista.  

Já o Dr. Luiz Paulo Kowalski, Líder do Centro de Referência em Tumores de Cabeça e Pescoço, abordou o ensino de Cirurgia Robótica em fellowship de um cancer center. Entre seus comentários, a necessidade de levar assistência de qualidade para a população. “São 4.8 bi de pessoas no mundo que não têm acesso a cirurgias de qualidade”, dado que reforça a necessidade de ampliação de ensino, pesquisa e assistência no planeta.   

Ainda tivemos a participação do Dr. Héber Salvador De Castro Ribeiro, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica, que trouxe a importância das certificações. Segundo o Dr. Héber, as entidades de classe, como SBCO, tem um papel importante para assegurar as certificações de qualidade no país e, dessa forma, contribuir diretamente com o desenvolvimento da técnica e com o desfecho clínico para pacientes.   

O Dr. Walter Henriques da Costa, Gerente Médico do A.C.Camargo Cancer Center, finalizou o encontro trazendo o olhar da gestão sobre a cirurgia robótica, enumerou algumas vantagens diretas do procedimento, além de salientar o custo-efetividade. “Se num primeiro momento a cirurgia robótica se apresenta como mais cara para as operadoras de saúde, em médio e longo prazo mostra-se mais efetiva, pois reduz as complicações clínicas e retornos aos especialistas, tornando o processo todo menos dispendioso".

Saiba tudo sobre cirurgia robótica em nossa página especial dedicada ao tema.  

“A imunoterapia está mudando o tratamento do câncer e o futuro parece bem iluminado”

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Entenda mais sobre este tipo de tratamento e sobre as CAR-T Cells com o Doutor David Maloney, norte-americano da Universidade de Washington e do Fred Hutchinson Cancer Research Center

As CAR-T Cells – em português, células CAR-T – são uma modalidade de imunoterapia que promete revolucionar o tratamento do câncer, sobretudo tumores hematológicos.

Trata-se de terapias personalizadas que agem em alvos específicos, usando células do paciente e não medicamentos sintéticos. 

Nela, as células de defesa do organismo são extraídas do paciente e moldadas em laboratório para combaterem seu próprio tumor. Depois, são infundidas de volta no paciente. Ou seja, elas atuam reprogramando as próprias células do paciente contra a doença.

Essa modalidade de tratamento imunoterápico foi discutida não apenas em painéis do Next Frontiers to Cure Cancer, congresso internacional organizado pelo A.C.Camargo: foi o assunto da aula magna Terapias com células CAR-T na prática clínica, dada pelo Doutor David Maloney, norte-americano da Universidade de Washington e do Fred Hutchinson Cancer Research Center.


CAR-T Cells e imunoterapia: futuro promissor

“A imunoterapia está mudando o tratamento do câncer e o futuro parece bem iluminado”, comemora o Doutor David Maloney, sem se esquecer que ainda há desafios importantes, principalmente em relação às CAR-T Cells.

“Há vários estudos em andamento nos quais estamos discutindo o poder das CAR-T Cells para acabar com as células cancerígenas, mas é difícil, precisamos compreender melhor como os receptores funcionam e cuidar da questão da toxicidade”, acrescenta o médico.

O Doutor David Maloney explicou que os estudos demonstram que há melhores respostas em leucemias, linfomas e mieloma múltiplo, mas ainda é preciso avançar, por exemplo, em compreensão para tumores sólidos e de pulmão.

Doutor David, cabelo e cavanhaque brancos, fala de imunoterapia
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Para avançarmos para este futuro iluminado, há estudos em andamento que discutem o poder das CAR-T Cells para acabar com as células cancerígenas, mas precisamos compreender melhor como os receptores funcionam e cuidar da questão da toxicidade.
Doutor David Maloney, da Universidade de Washington e do Fred Hutchinson Cancer Research Center

As tendências do design na área da saúde

No primeiro dia do Next Frontiers to Cure Cancer, a sessão de “Experiência do Paciente” trouxe profissionais que abordaram temas relacionados a arquitetura e design. 

Durante a aula Tendências do design – Hospitais do futuro, a arquiteta e urbanista Ana Paula Naffah Perez trouxe 10 tendências para a área da saúde.

Hospitais conectados

Segundo a arquiteta, adultos passam em média 11 horas por dia olhando uma tela. Por isso, é importante que as unidades de saúde estejam conectadas e que possam ser utilizadas de forma remota. “A unidade de saúde tem que refletir essa nova realidade e transformá-la em uma experiência interessante para o paciente, familiar e profissionais”, cometa Ana Paula.

Como contraponto à tecnologia, Ana Paula comenta sobre a tendência da biofilia, que é a natureza cada vez mais integrada às unidades hospitalares, trazendo bem-estar e conforto emocional.

Design limpável, durável e sustentável

Embora o controle de infecção não seja novidade, a avaliação correta no uso e especificação dos materiais se transformou num dos itens mais importantes dos projetos. A especificação ideal são materiais que possam alinhar facilidade de assepsia, durabilidade, estética e sustentabilidade.

Por isso, a sustentabilidade como tendência é um desafio para o arquiteto, que precisa trabalhar com revestimentos, por exemplo, de forma inteligente.

“A arquitetura é a vontade de uma época, traduzida em espaço, como diz o mestre da arquitetura, Mies Van Der Rohe. E precisamos traduzir o futuro na arquitetura para a área da saúde”, finaliza Ana Paula.
 

Ana Paula Naffah Perez

CAR-T Cells: será o fim do transplante alogênico para a leucemia linfoide aguda?

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Confira o que acha o Doutor Ryan Cassaday, norte-americano que deu uma aula no Next Frontiers to Cure Cancer, congresso internacional organizado pelo A.C.Camargo

As CAR-T Cells, também conhecidas como células CAR-T, são uma grande novidade no tratamento de tumores hematológicos, embora seja um tratamento que não esteja disponível para o grande público.

O assunto foi tema no Next Frontiers to Cure Cancer, congresso internacional organizado pelo A.C.Camargo.

No painel Neoplasias Hematológicas - Leucemia Linfoide Aguda - O futuro da terapia com células CAR-T: será o fim do transplante alogênico?, o Doutor Ryan Cassaday, norte-americano que é professor na Universidade de Washington e no Fred Hutchinson Cancer Research Center, diz que ainda são necessários alguns avanços.


CAR-T Cells: o que são 

As CAR-T Cells são terapias personalizadas e agem em alvos específicos, usando células do paciente e não medicamentos sintéticos. 

Trata-se de células de defesa do organismo, que são extraídas do paciente e moldadas em laboratório para combaterem seu próprio tumor. 

Depois, são infundidas de volta no paciente. Ou seja, elas atuam reprogramando as próprias células do paciente contra a doença. 

Segundo o Doutor Ryan Cassaday, precisamos responder a perguntas para as quais ainda não temos respostas.

"Precisamos conseguir respostas mais rápidas, eficazes e seguras. Temos diferentes prognósticos, como fatores de pré-tratamento, o peso das doenças e terapias anteriores. Também precisamos de mais centros realizando as terapias com CAR-T Cells no mundo para entender mais sobre quais pacientes respondem melhor às CAR-T Cells. Enquanto não tivermos isso, o transplante pode seguir como uma opção interessante”, analisa o médico.

Doutor Ryan, branco, 40 anos, CAR-T Cells

Terapia canabinoide no tratamento do câncer: estudos mostram benefícios

Linha Fina

Entre eles, diminuição de náusea e vômito, ação ansiolítica e anti-inflamatória e redução de dores crônicas e neuropáticas 

A terapia canabinoide no tratamento do câncer é algo comprovado por vários estudos, sobretudo internacionais, inclusive reconhecidos pela ASCO (Sociedade Americana de Oncologia).

Foi esta a temática de uma das aulas de abertura do Next Frontiers to Cure Cancer, congresso internacional organizado pelo A.C.Camargo de 22 a 25 de junho.

No painel Cannabis no Controle de Sintomas em Oncologia, a Doutora Carolina Nocetti, Coordenadora Internacional da Academia Americana de Medicina Canabinoide e que tem larga experiência internacional no assunto, explicou que há mais de 100 fitocanabinoides.

"O sistema canabinoide é complexo e se relaciona com outros sistemas fisiológicos. O CB1 atua no sistema nervoso central e o CB2 nas células imunológicas", diz a médica. 


Terapia canabinoide no tratamento do câncer: não cura, mas melhora a qualidade de vida

Segundo a Doutora Carolina Nocetti, há inúmeros estudos que mostram a associação positiva do uso da terapia canabinoide no manejo de sintomas oncológicos, algo que inclusive é reconhecido pelo Conselho Federal de Medicina. 

“O CBD pode atuar na diminuição de náusea e vômito induzidos por quimioterápicos, além de atenuar dores crônicas e neuropáticas, ter ação ansiolítica e anti-inflamatória e ajudar no apetite. O CBD não cura, mas pode trazer uma melhor qualidade de vida”, afirma a Doutora Carolina Nocetti.

Doutora Carolina, 40 anos, branca e cabelo curto negro, Terapia canabinoide no tratamento do câncer