Após 7 anos, OMS atualiza classificação dos linfomas e patologistas de 9 países debatem em SP os novos critérios

Publicado em: 23/04/2015 - 21:04:00
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A cidade de São Paulo receberá ao longo de quatro dias – de 27 a 30 de maio –- alguns dos principais nomes do mundo no entendimento do perfil anatomopatológico e molecular, que leva ao diagnóstico preciso e tratamento personalizado dos tumores hematopoiéticos, entre eles os muitos subtipos de linfomas. Serão cerca de 300 patologistas, entre palestrantes do Brasil, da Alemanha, do Canadá, da Espanha, dos Estados Unidos, da Itália, do México, do Peru e de Portugal e público especializado, reunidos durante a XIX Jornada de Patologia, promovida pelo A.C.Camargo Cancer Center. 

Entre os destaques da programação está o patologista e diretor da Divisão de Hematopatologia da University of Pittsburgh, Steven Swerdlow, que pertence ao Corpo Editorial da Organização Mundial de Saúde (OMS), que lançará em 2015 a nova classificação mundial dos linfomas. Swerdlow é autor da edição atual, lançada em 2008. As primeiras versões, sempre com espaço de sete anos entre suas atualizações, são de 2001 e 1994.

Com a nova classificação dos linfomas, o patologista, coordenador da Jornada de Patologia e diretor de Anatomia Patológica do A.C.Camargo, Fernando Augusto Soares, observa que alguns novos subtipos de câncer serão confirmados, enquanto outros já conhecidos serão mais bem definidos. "Diferenciar com precisão cada tipo é fundamental, pois, se o patologista não fizer o diagnóstico correto, o paciente perde a chance de se tratar adequadamente, ou seja, de receber o tratamento direcionado para aquele tipo específico de tumor", destaca Soares. 

Além das apresentações de Fernando Soares e Steven Swerdlow, a Jornada de Patologia terá aulas de Carlos Barriovuevo, do Instituto Nacional de Enfermedad Neoplásicas, do Peru; Carmen Lome-Maldonado, do Instituto Nacional de Ciencias Medicas y Nutrición, do México; Elias Campo, do Health Universitat de Barcelona, e Miguel Piris, do Hospital Universitario Marqués de Valdecilla, ambos da Espanha; Falko Fend e Leticia Quintanilha-Martinez, da University of Tubingen, da Alemanha; José Cabeçadas, do Instituto de Oncologia de Lisboa, de Portugal; Randy Gascoyne, do British Columbia Cancer Research Center, do Canadá, e  Stefano Pileri, da University of Bologna, da Itália. Representando instituições brasileiras, a programação terá Carlos Chiattone (Santa Casa de São Paulo), Eduardo Rego (USP/Ribeirão Preto), Octavio Baiocchi (UNIFESP), Sara Saad (UNICAMP), além de Felipe Costa, José Vassalo, Talita Silveira da Rocha e Victor Piana de Andrade (A.C.Camargo).

APRENDIZADO PARA OS PATOLOGISTAS  A Jornada de Patologia faz parte da Escola de Patologia Oncológica Avançada Humberto Torloni (EPOAHT), criada pelo A.C.Camargo com a proposta de oferecer Educação Continuada aos patologistas brasileiros e residentes da área, visando à reciclagem do profissional que atua no diagnóstico morfológico e molecular do câncer. Saber estratificar os tipos de câncer é sempre um desafio para o patologista, até para os mais experientes, ainda mais em se tratando de linfoma, conforme explica Fernando Soares. "O linfoma é um desafio para o patologista. Está, por exemplo, repleto de mimicker (tumor que morfologicamente pode parecer ser um tipo X, mas é Y, por exemplo) e apenas o diagnóstico preciso pode beneficiar, de fato, o paciente", explica. 

Outro ponto é o fato de que o patologista se depara com um vasto painel de imuno-histoquímica. Nesse momento, comenta Fernando Soares, o patologista menos experiente pode pensar que tanto faz se determinado câncer é um linfoma do manto ou linfoma da zona marginal, por exemplo, imaginando que o tratamento seja o mesmo para ambos. "Na atual Era do tratamento personalizado, esse é um pensamento que não pode ser aceito, em hipótese alguma", enfatiza. 

Nesse sentido, a Jornada será muito importante, comenta Soares, por ajudar o patologista a esclarecer os pontos mais complexos. "O formato do evento propicia a troca de experiência e a oportunidade de um patologista menos experiente levar os seus casos mais difíceis para discussão juntos aos patologistas mais renomados naquele tipo específico de linfoma", destaca.

COMO SÃO E COMO TRATAR OS LINFOMAS  Linfoma é um tipo de câncer que se origina nos linfócitos, encontrados nos gânglios linfáticos, que compõem o sistema linfático distribuído por todo o corpo. Classificados em dois grandes grupos (Hodgkin e não Hodgkin), os linfomas podem, primordialmente, se originar da proliferação das células dos linfócitos B ou T. Os linfomas de células B correspondem a 85%-90% dos linfomas, enquanto os originados em células T não passam de 15% em nenhuma casuística mundial. 

Por serem mais prevalentes que os linfomas T, os linfomas B são mais bem caracterizados, com resultados terapêuticos mais uniformes. Dentre as opções terapêuticas se destaca o anticorpo monoclonal rituximabe, uma droga anti-CD20 que, na opinião de Fernando Soares, mudou a história natural dos linfomas, abrindo caminho para novas drogas, com alvos bem específicos e ótimos resultados. "A hematologia é o campo, dentro da medicina personalizada, que mais evoluiu. Sempre foi uma área que, por sua integração com a imunologia, trouxe mais resultados relevantes do que os obtidos com os tumores sólidos. A hematologia é a área que melhor integrou os aspectos moleculares e genéticos, tendo um amplo desenvolvimento de drogas", contextualiza. 

O rituximabe é indicado para o tratamento do linfoma difuso de grandes células B, que corresponde a cerca de 30% de todos os linfomas, e também para os pacientes com linfoma não Hodgkin de células B folicular em primeira e segunda linhas. A boa notícia, conforme exemplifica Fernando Soares, é que somada a esta droga há inúmeras novas drogas para linfoma de células B, com ótimos resultados. São os casos, por exemplo, dos anti-ZAP70 e anti-CD30.

Com os linfomas T, comenta Soares, agora é que os especialistas estão tendo uma visão um pouco mais clara de como eles se dividem. O fator complicador é que eles são linfomas muito particulares, inclusive com alternâncias motivadas por questões éticas e geográficas. "O grande problema dos linfomas T é que eles são raros. Então, é difícil você juntar conhecimento e entender o motivo por trás, por exemplo, pelo qual o Brasil, o Caribe, o Peru ou o Japão, por exemplo, tem maior incidência de determinados subtipos raros da doença", explica.

Consequentemente, acrescenta Soares, 4 entre 10 linfomas T hoje são enquadrados como sem especificações. "Claro que há uma especificação para cada subtipo, mas ainda não sabemos qual é este lugar em que eles se enquadram. Apenas juntando experiências, em trabalhos colaborativos, é que chegaremos a estas respostas. Este é um dos propósitos da Jornada", alerta.  

Dentre os avanços relacionados aos linfomas de células T se destaca o que atua sobre a proteína PDL1, que se comunica com outra proteína presente nos glóbulos brancos, a PD1. A droga anti-PD1 impede essa comunicação, fazendo com que as células de defesa ataquem o tumor. Esse é um mecanismo que vem se mostrando importante não apenas nesses linfomas, como também em outros tumores, entre eles o melanoma.

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