Os cuidados com transplantados de medula óssea

Publicado em: 24/06/2019 - 16:06:40
Tratamento
Diagnóstico
Suporte e Reabilitação
Neoplasias Hematológicas

Uma conversa com a infectologista Marjorie Vieira Batista, que abordou o tema no Global Academic Programs (GAP), no Texas  

De acordo com estimativa do Ministério da Saúde, o Brasil realizou 2684 transplantes de medula óssea em 2018, um recorde. 

O procedimento é uma opção de combate a mais de 200 doenças diferentes, como leucemias, linfomas, mieloma múltiplo e, em casos extremos, anemias muito graves, provocadas por uma disfunção no amadurecimento ou na produção das células do sangue.

Médica infectologista do Departamento de Infectologia do A.C.Camargo e responsável pelas infecções no Departamento de Hematologia (transplante e leucemias), Marjorie Vieira Batista levou sua expertise ao Global Academic Programs (GAP), uma conferência ocorrida em maio no MD Anderson Cancer Center, em Houston, Texas.

A seguir, a doutora Marjorie Vieira Batista fala sobre os cuidados com os pacientes que passaram por transplante de medula óssea, tema que permeou a participação dela no evento.

Como foi sua atuação no Global Academic Programs?
Este evento reúne todas as instituições irmãs do MD Anderson Cancer Center, inclusive esteve presente uma comitiva do A.C.Camargo com sete pessoas. Fui convidada a apresentar o tema do meu pós-doutorado, que foi feito lá no MD em 2018, no qual analiso os cuidados com infecções e doenças resistentes que podem acometer aqueles que fizeram transplante de células-tronco hematopoiéticas. Me apresentei na sessão de doenças infecciosas do encontro e também fui co-chair na sessão científica, que tratou, entre outras coisas, dos avanços nas infecções respiratórias em pacientes com malignidades hematológicas. 

Quais os principais pontos abordados?
Os fatores de risco que levam os pacientes a desenvolverem resistência ao tratamento do citomegalovírus após o transplante de medula óssea. É que esse vírus reativa mais frequentemente depois do transplante.

Quando a função da medula óssea é destruída, corre-se o risco de desenvolver infecções graves porque perde-se temporariamente a capacidade de produzir glóbulos brancos? Eles que combatem as infecções?
Sim. O primeiro passo do transplante é a quimioterapia para destruir a medula óssea “velha”. Depois, o paciente fica um período aguardando até sua nova medula funcionar. Neste momento, ele está totalmente vulnerável a vários tipos de infecções: bacterianas, fúngicas, virais, dentre outras mais raras. Mesmo quando a nova medula passa a funcionar, o paciente ainda leva um ano para ter sua imunidade reconstituída.

Para quem vai visitar um transplantado: além de lavar as mãos, deve-se usar máscara?
Apenas se o paciente estiver em isolamento respiratório.

Podemos levar frutas ou flores? 
Não, porque podem trazer bactérias, fungos, protozoários e helmintos. O paciente deverá alimentar-se apenas com a comida do hospital, que possui um processamento seguro e supervisionado em relação à contaminação.

Há outras precauções? 
Não são permitidas visitas de pessoas gripadas. Ou mesmo as que estiveram gripadas no último mês.

No caso de transplante alogênico, aquele que a medula vem de um familiar ou de outra pessoa compatível, por que o ar do quarto deve ser filtrado? 
É necessária uma vigilância programada da água e do ar, em pressão positiva, com realização de cultura de fungos e bactérias.

Outras medidas podem ser tomadas para reduzir as chances de infecção? Por exemplo, a vacinação e o uso profilático de antibióticos, antifúngicos e antivirais?
Durante o período do transplante são implementadas várias estratégias para prevenir e tratar precocemente as infecções. Dentre essas medidas, temos a profilaxia para alguns vírus, fungos e bactérias. Há ainda outra estratégia que chamamos de terapia preemptiva: um tratamento pré-sintomático baseado em biomarcadores que pesquisamos semanalmente no sangue do paciente. Após o transplante, em três meses iniciamos um esquema vacinal para todos os pacientes, uma vez que eles perdem a “memória protetora” das vacinas recebidas antes do transplante.

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