AACR 2019: novas discussões sobre obesidade, sedentarismo e exercício físico no contexto da Oncologia

Publicado em: 03/04/2019 - 16:04:53
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Tumores Urológicos

Equipe do A.C.Camargo acompanha as novidades sobre prevenção, diagnóstico e tratamento do câncer divulgadas pela American Association for Cancer Research 

Por Dr. Stenio de Cassio Zequi, head da Urologia no A.C.Camargo Cancer Center 

Durante o AACR Pre-Annual Meeting (28/03 a 03/04), em Atlanta, nos Estados Unidos, verificamos intensos debates, sob novas óticas, de temas que despertam interesse há muito tempo na área da Saúde, principalmente, em Oncologia: obesidade, sedentarismo, exercício físico e risco de câncer. Mesas-redondas e sessões confirmaram que a obesidade confere ao paciente um estado de inflamação crônica contínua e persistente. Esse processo resulta na produção de múltiplas substâncias tóxicas que diminuem a atividade da insulina, aumentam o risco de diabetes e produzem diversos metabólitos pelos tecidos gordurosos, os quais aumentam os riscos de desenvolvermos câncer ou se associam, com maior agressividade celular, a diversas neoplasias malignas. 

Antigamente, pouca importância era dada às células gordurosas presentes nos tumores, bem como o tecido adiposo em geral das pessoas. Hoje, entendemos que o tecido gorduroso não serve apenas para “preencher espaços em nosso organismo”, mas trata-se de um sistema tecidual complexo, um “órgão” intensamente ativo dos pontos de vista bioquímico e biomolecular, com múltiplas interações com o tecido tumoral. 

Em 30 de abril, Dr. Bing Li, PhD, professor sobre Obesidade e Inflamação da Faculdade de Medicina da Universidade de Lousvile, no Kentucky, demonstrou que uma enzima produzida pelas células de gordura, chamados adipócitos, a Fatty Acid Binding Protein (FABP), se liga a proteínas, além de atuar como indutor de resistência à insulina e do desenvolvimento do diabetes. A FABP é elemento fundamental nos mecanismos de vantagens adaptativas que as células tumorais adquirem para driblar as defesas de nosso organismo, como o aumento da proliferação e redução da mortalidade destas células malignas em comparação as células saudáveis. 

Entremeando o tecido gorduroso, há o estroma, o tecido de suporte às células gordurosas. Nesse ambiente, foram descritos novos tipos de células muito ativas: as Adipose Stromal Steem Cells (ASC), ou seja: células- tronco do estroma adiposo. Essas células ASC têm capacidade de transformação para diversos tipos celulares, num processo no qual vão perdendo aspectos morfológicos e funcionais de carcinoma e ganhando características e formato de células malignas com perfil mesenquimal: esse processo é conhecido como Transição Epitélio-Mesênquima (TEM). Quando atingem esse aspecto mesenquimal do TEM, ficam muito mais agressivas, invadem tecidos, originam mais metástases e ficam mais resistentes aos tratamento habituais. 

Para que o processo TEM ocorra são necessárias as secreções de diversos fatores de crescimento celulares, hormônios, proteínas etc. Nesse dinâmico processo, Mikhail Kolonin, PhD - professor associado e diretor do Centro para Doenças Metabólicas e Degenerativas Harry E. Bovay, e líder da Pesquisa em Doenças Metabólicas da Universidade do Texas em Houston -  destacou as células do tecido adiposo branco, ou WAT (White Adipose Tissue), que ao lados dos adipócitos intratumorais são fontes de produção de energia para a maquinaria celular maligna e favorecem os processos de TEM: essas células produzem citoquinas, quimioquinas, que induzem migração/invasão e transformações celulares, entre outras ações.  

Philip Schrer, PhD, professor e chefe do setor de pesquisa em Diabetes, da Universidade do Texas, em Dallas, comprovou que o adipócito hoje é uma grande célula secretora, “fabricando” centenas de fatores de crescimento e que tem sido chamados de endotrofinas.  Ao que parece, de acordo com os palestrantes, entre os indivíduos obesos, aqueles mais ativos (menos inflamados) ou saudáveis, têm menos riscos oncológicos do que aqueles obesos e sedentários.

Frente a isso, foi curioso acompanhar na segunda-feira (01/04) um debate focado na avaliação dos resultados de tratamentos não farmacológicos do câncer, ou seja, baseado em promoção de alterações de estilo de vida e hábitos pessoais. Esse encontro avaliou os impactos da promoção da perda de peso, da alteração de dieta e de programas de exercício físico nos desfechos de pacientes que se encontram em tratamento de diversos tipos de câncer. A Dra. Jennifer Ligibel, oncologista clínica, professora da Harvard, e diretora do Centro de Terapias Integrativas e Vida Saudável do Dana Farber Cancer Institute de Boston, reportou que em vários estudos populacionais, a obesidade está associada com maiores riscos de desenvolvimento de 13 tipos de câncer dos mais comuns em humanos. Mostrou ainda que a perda de peso intencional ou não, ou mesmo promovida por cirurgias bariátricas, reduzem as chances de mulheres desenvolverem câncer de mama. Embora estudos sugiram que sim, não se comprovou de modo irrefutável que a perda de peso em pacientes durante o tratamento oncológico possa interferir favoravelmente. 

A Dra. Dorothy Sears, professora de Endocrinologia da Universidade da Califórnia, em San Diego, discutiu se devemos estimular os pacientes a reduzir a ingestão calórica em favor de dietas mais saudáveis, durante o tratamento do câncer. Evidências sugerem alguns benefícios e novas pesquisas vão nessa direção sem conclusão absoluta. Ela destacou pesquisas iniciais sobre o papel do jejum intermitente durante o tratamento, concluindo que, por enquanto, isso é muito inicial e não deve ser recomendado. No encerramento,  o Dr. Lee Jones, do Departamento de Exercício Físico do Memorial Sloan Kettering Cancer Center de Nova York, mostrou que embora a realização rotineira de exercícios físicos, de três a quatro vezes por semana, melhorem os resultados terapêuticos de pacientes com câncer de próstata metastático, as demais evidências não são totalmente  suficientes para afirmarmos que a atividade física regular pode melhorar os resultados dos tratamentos da maioria dos pacientes oncológicos durante a quimioterapia. Em contrapartida, há alguns tumores em pacientes obesos que podem evoluir melhor com a quimioterapia ou imunoterapia, respondendo melhor ao tratamento. Por exemplo, há pacientes obesos com câncer de rim ou melanoma, ou câncer de próstata metastático que parecem responder melhor aos tratamentos, por isso o assunto ainda é muito controverso.

Entretanto, Dr. Jones demonstrou que em estágios iniciais de cânceres de mama, de próstata e colorretais, a mortalidade por câncer e as recidivas tumorais são 30 a 35 % menores em pacientes que eram fisicamente ativos em comparação aos pacientes que eram sedentários ao diagnóstico. 

Em suma, podemos concluir que uma dieta equilibrada e atividade física regular são fundamentais para a redução da incidência de diversos cânceres na população em geral. Já o papel disso em quem já está sob tratamento, embora pareça ser favorável, ainda merece mais pesquisas. É importante reavaliar o que, quanto e como comemos, e entender que se exercitar continuamente é tão importante quanto tomar vacinas ou remédios. Precisamos incluir a atividade física nas nossas já “lotadas” agendas, como um compromisso importante e irremediável. 

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