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Existe exame “preventivo”
para o câncer de ovário?
Existe exame “preventivo” para o câncer de ovário?

Embora o câncer de ovário seja incomum, atualmente ocupa no mundo a oitava posição entre as causas de morte por câncer entre as mulheres. Segundo dados do INCA (Instituto Nacional do Câncer), a incidência estimada para 2019 no Brasil é de 5,79 casos por 100.000 mulheres, devendo totalizar cerca de 6.150 novos casos somente este ano. A letalidade do câncer de ovário tende a ser mais elevada em comparação aos outros tipos de câncer dos órgãos reprodutores femininos. Mais de 60% dos casos são diagnosticados após o câncer ter metastatizado, ou seja, quando já se espalhou para outros órgãos e tecidos. Em 2015, no Brasil, ocorreram 3.536 óbitos por câncer de ovário. Existe, portanto, uma grande preocupação em se realizar o diagnóstico precoce desta doença, o que poderia aumentar suas chances de cura.

Testes de rastreio funcionam?

Os testes de rastreio populacional, mais conhecidos como “exames de prevenção”, são exames de laboratório ou imagem que buscam indícios do câncer em mulheres saudáveis e sem sintomas da doença, encontrando o câncer antes mesmo dele se manifestar. Exemplos de exames de rastreio utilizados na prática incluem o teste do Papanicolaou (câncer do colo de útero), mamografia (câncer de mama), exame do PSA (câncer de próstata em homens) e colonoscopia (câncer de cólon). Por ser uma doença heterogênea, diferentes exames são realizados para diferentes tipos de câncer.

A má notícia é que, apesar dos esforços, testes de rastreio não mostraram nenhum efeito sobre as taxas de cura do câncer de ovário, de acordo com análise recente realizada pela Força Tarefa de Serviços Preventivos dos EUA (USPSTF). E, para piorar, o rastreio do câncer de ovário em mulheres saudáveis e sem sintomas pode ainda causar danos às pacientes. Neste estudo testou-se a eficácia do rastreio utilizando-se o marcador tumoral Ca-125 (analisado por exame de sangue) e o ultrassom transvaginal (exame de imagem que consegue avaliar o útero e os ovários). A conclusão da análise é de que, além de não melhorar as taxas de cura da doença, algumas pacientes tiveram resultados falsamente positivos, isto é, quando o exame aponta a presença do câncer sem ele de fato existir, levando a cirurgia abdominal desnecessária em 1 a 3% das mulheres e até 15% tiveram complicações decorrentes do procedimento cirúrgico como infecções, complicações da anestesia e perfurações de vísceras. Do ponto de vista psicológico, mulheres que foram submetidas a muitos exames de rastreio também foram afetadas, apresentando maiores taxas de ansiedade e preocupação com o câncer. 

Portanto, para o câncer de ovário, ainda não existe um exame padrão para o seu rastreio em mulheres saudáveis e sem sintomas. Trabalhos recentes apontam para um crescente entendimento de que as diferenças de sobrevivência no câncer de ovário estão mais ligadas ao tipo de câncer do que ao diagnóstico precoce. No entanto, deve-se frisar que mulheres que apresentam sintomas ou história familiar e pessoal importantes para o câncer de ovário/mama e aquelas portadoras de alterações genéticas hereditárias, como por exemplo, a mutação BRCA, devem seguir recomendações específicas de seus médicos.

Dr. Daniel Garcia - CRM 138.404
Médico oncologista clínico do A.C.Camargo Cancer Center