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Suco gástrico dos pacientes com
câncer de estômago pode ser útil
para identificação de tumor
Suco gástrico dos pacientes com câncer de estômago pode ser útil para identificação de tumor

Publicado em: 08/05/2019

Estudo inédito pode ajudar na avaliação da resposta ao tratamento e trazer novas informações que a biópsia comum não é capaz de fazer

A biópsia de um tumor obtida na endoscopia é um procedimento comum na rotina médica, porém, por conter apenas fragmentos isolados do tumor, não é capaz de representar toda a complexidade do câncer gástrico. Essa doença geralmente apresenta sintomas pouco específicos, levando a um diagnóstico tardio que acaba limitando as opções de tratamento e cura dos pacientes. 

“Quando o paciente passa por uma endoscopia - o que é rotina para aqueles que têm algum desconforto no estômago ou para investigação da existência de câncer - o médico “lava o órgão com 5 a 10 ml de água destilada para melhorar sua visualização durante o exame, e esse líquido, que antes seria descartado, se mostrou uma fonte importante de material do paciente, que é útil para pesquisa e, eventualmente, para sua saúde. Assim surgiu a ideia de utilizar o suco gástrico para estudarmos o perfil de mutações presentes neste material, já que ele está em íntimo contato com o estômago e suas eventuais lesões e células tumorais”, explica a MS (mestre) Melissa Pizzi, autora do estudo Identification of DNA mutations in gastric washes from gastric adenocarcinoma patients: possible implications for liquid biopsies and patient follow-up/ Identificação de mutações de DNA em lavagens gástricas de pacientes com adenocarcinoma gástrico: possíveis implicações para biópsias líquidas e acompanhamento do paciente publicado em fevereiro no International Journal of Cancer. 

O estudo, tema da tese de mestrado de Melissa no A.C.Camargo, teve a participação da Dra. Thais Bartelli, do Centro Internacional de Pesquisa (CIPE), e foi coordenado pelo Dr. Emmanuel Dias Neto, também do CIPE.  “Nós coletamos esse líquido dos pacientes durante o exame endoscópico e isolamos o seu DNA, para então estudarmos o perfil de mutações encontrado neles. Escolhemos avaliar o gene TP53 porque já se sabe que ele apresenta mutações em diversos tipos de cânceres, e também em câncer de estômago. Isso facilitaria nossa pesquisa inicial do potencial do suco gástrico para a detecção de mutações neste e em outros genes que podem ser importantes para a doença”, explicam Melissa e a Dra. Thais. O estudo revelou ainda uma série de mutações que não haviam sido capturadas no tumor original, com importantes implicações para diagnóstico, monitoramento e adoção de tratamentos específicos.

A utilização de fluidos corporais (suco gástrico e plasma) é chamada de biópsia líquida e pode fornecer informações sobre a doença que uma biópsia do tecido do tumor não forneceria.  Ainda são necessários novos estudos dessa abordagem, que prometem trazer importantes benefícios para os pacientes no futuro.  Eles poderão ser monitorados por meio de análises no suco gástrico e no sangue, de maneira a auxiliar o médico no monitoramento. Ou seja, será possível saber se os pacientes estão respondendo bem ao tratamento ou não. Com isso, as descobertas poderiam ajudar os médicos na manutenção ou troca do medicamento, ou a partirem mais rapidamente para a cirurgia.

A coleta de suco gástrico/sangue de pacientes em risco de desenvolver a doença ou com histórico familiar é um ponto muito relevante, já que aumenta a chance de detectar o câncer em uma fase inicial da doença, o que significa maior chance de cura. “Os resultados obtidos nesse nosso estudo nos impulsionaram a pesquisarmos outros genes que podem estar mutados no DNA presente no suco gástrico, em estudo que já está em andamento no nosso laboratório”, diz a Dra. Thais.

Além dos achados científicos em si, esse trabalho é um exemplo da atuação integrada do A.C.Camargo, unindo o laboratório de pesquisa e os cientistas aos enfermeiros, médicos clínicos, patologistas e cirurgiões que estão em contato direto com os pacientes. Essa relação de cooperação traz os cientistas mais para perto do dia a dia do hospital, humanizando a pesquisa.