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Colonoscopia: rastreamento eficaz, expansão difícil
Colonoscopia: rastreamento eficaz, expansão difícil

Segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (Inca), o câncer colorretal está entre os três tumores mais comuns na população brasileira, com 16,66 casos para cada 100 mil homens e 17,62 para 100 mil mulheres. No entanto, o principal exame de rastreamento da doença, a colonoscopia, ainda é pouco procurado pelos pacientes, por ser considerado invasivo e ter um custo mais elevado. 



Diferentemente de outros métodos de detecção precoce – como a mamografia, o papanicolau e o toque retal para os cânceres de mama, colo do útero e próstata, respectivamente –, que são feitos mais rapidamente e após os procedimentos o paciente já é liberado, a colonoscopia exige um tempo de recuperação maior. "Quem a realiza, em geral, precisa dispor de um período do dia, pois é necessário preparar o intestino e receber sedação", explica Dr. Samuel Aguiar Jr., chefe do Núcleo de Tumores Colorretais do A.C.Camargo Cancer Center. Além disso, é um procedimento mais invasivo, pois é necessária a introdução de um tubo flexível pelo ânus, com uma microcâmera que transmite as imagens captadas por todo o canal.

Essas questões, entretanto, não diminuem a importância de expandir a prática da colonoscopia. "É comprovada a queda de mortalidade em longo prazo quando se faz o rastreamento do câncer de intestino de forma preventiva, em quem não apresenta sintomas", aponta o médico. Porém, no caso da colonoscopia, é mais complexo incentivar ações semelhantes às que existem para mamografia e exame de toque retal. "Isso porque o câncer colorretal não tem prevalência homogênea em todo o Brasil. É muito mais comum nas regiões Sul e Sudeste do que no Norte e Nordeste. Fica mais difícil idealizar um trabalho de expansão nacional nesse cenário", argumenta Dr. Samuel.

Alternativas

O especialista aponta duas opções para promover a detecção precoce do câncer colorretal: a iniciativa individual do próprio paciente de solicitar ao médico a colonoscopia em seus exames de rotina (recomendável a partir dos 50 ou 40 anos para quem tem histórico familiar); e/ou realizar anualmente o exame de sangue oculto nas fezes. "Esse exame funciona como uma 'pré-seleção' para a colonoscopia, pois pode identificar sangue nas fezes associado ou não ao câncer de intestino e isso permite estabelecer se o paciente precisa se submeter a uma colonoscopia", explica. O médico destaca a grande vantagem desse procedimento: "Apenas 10% dos casos, aproximadamente, têm resultados positivos e precisam realizar exames complementares. Assim, em vez de incentivar a colonoscopia em todos os pacientes acima dos 50 anos ou em quem tem histórico familiar, é possível recomendar somente para quem realmente precisa".

Dr. Samuel salienta que, no Brasil, ainda não se conhece o custo-benefício para idealizar um trabalho, de âmbito nacional, de sangue oculto nas fezes. Mas, ao visualizar números semelhantes de incidência do câncer colorretal na Europa e nas principais metrópoles brasileiras, o médico avalia ser possível apostar nesse tipo de ação. "Como as regiões Sul e Sudeste têm prevalência semelhante aos países europeus, poderíamos avaliar a viabilidade de promover campanhas pela realização do exame nesses locais", finaliza o médico.

O A.C.Camargo Cancer Center realiza um estudo piloto desde fevereiro sobre sangue oculto nas fezes e sua possível eficiência caso seja aplicado no Brasil. Esse estudo tem apoio da Tokyo Medical and Dental University (TMDU) e do governo do Japão, além da iniciativa privada japonesa, representada pela Fujifilm e pela Eiken.

De fevereiro a julho, 1.500 pessoas fizeram o exame com o kit japonês. Desse total, 87, todas assintomáticas, apresentaram resultado positivo para presença de sangue nas fezes e foram encaminhadas para realizar colonoscopia. "Detectamos lesões precoces em 26 pessoas e câncer de intestino em quatro, que já estão em tratamento no A.C.Camargo", informou Dr. Samuel. A pesquisa conta com outras duas instituições brasileiras e está prevista para se encerrar em 2015.

Dr. Samuel Aguiar Jr. - CRM 84495
Chefe do Núcleo de Tumores Colorretais
Especialista em Cancerologia Cirúrgica - RQE nº 43422